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A empresa americana “The Agora” criou um império bilionário vendendo boletins informativos sobre investimentos e saúde natural — muitos deles com conselhos enganosos e teorias da conspiração. A companhia atrai usuários com anúncios chamativos no Instagram ou Facebook que prometem “curas escondidas” para doenças graves ou “fundos secretos” liberados por políticos como Donald Trump.
Por trás dessas promessas, há uma estratégia de marketing que converte cliques em assinaturas e produtos que chegam a custar milhares de dólares.
Em um desses anúncios — um vídeo de 57 minutos intitulado “Alerta Urgente para Americanos Nascidos Antes de 1979” — um homem de cabelos brancos, em tom dramático, alega que grandes farmacêuticas estão “inundando a nação com veneno” e convida os espectadores a se juntarem ao chamado “Health Sciences Institute”, ligado ao conglomerado Agora.
Apesar de o site conter um aviso legal informando que o conteúdo não deve ser interpretado como aconselhamento médico individual, o vídeo é apenas um entre centenas criados por suas subsidiárias, que há décadas lucram explorando a desconfiança dos americanos em relação a prestadores de serviços de saúde.
O esquema
A “The Agora” fatura vendendo assinaturas de boletins informativos sobre “saúde natural”, que funcionam como canais para seus suplementos de bem-estar, além de relatórios com dicas de investimento que podem custar milhares de dólares por ano.
Um anúncio recente afirma que o presidente Trump em breve “liberará” um “fundo secreto” de US$ 150 trilhões (R$ 834 trilhões), que teria sido escondido do povo americano, e que é possível enriquecer negociando com base nisso — basta assinar. Segundo a biblioteca de anúncios da empresa, a “The Agora” já gastou pelo menos US$ 500 mil (R$ 2,78 milhões) promovendo essa alegação somente nas plataformas da Meta.
Além disso, a “The Agora” afirma ser uma empresa com faturamento superior a US$ 1,5 bilhão (R$ 8,34 bilhões), e suas subsidiárias investem milhões por mês em publicidade no Facebook e Instagram. Os canais ligados à Agora já somam mais de 100 milhões de visualizações no YouTube, e os boletins mais populares da empresa contam com milhões de assinaturas. O grupo de proteção ao consumidor “Truth in Advertising” estimou que a companhia arrecadou US$ 500 milhões (R$ 2,78 bilhões) somente em 2021.
Porém, em sites como “TrustPilot” e “Better Business Bureau”, uma ampla rede de empresas sob direção da Agora acumula centenas de avaliações com uma estrela. Nessas queixas, consumidores relatam ter gasto milhares de dólares em assinaturas vitalícias de boletins informativos que foram encerrados repentinamente, sem reembolso, e/ou perdido dinheiro ao seguir os conselhos de investimento fornecidos.
Em uma dessas avaliações, um ex-cliente relata ter desperdiçado mais de US$ 15 mil (R$ 83,4 mil) nos produtos da Agora — incluindo uma “assinatura VIP especial”, com atualizações exclusivas, alertas e vídeos, que custava mais de US$ 9.500 (R$ 52.820). O cliente se recusou a fornecer mais detalhes ao ser contatado para comentar.
Uma ex-funcionária de uma empresa da Agora contou que, após uma semana de integração no escritório em Baltimore, começou a suspeitar de que o modelo de negócios da empresa se baseava em explorar pessoas mais velhas. Ela chegou a procurar os nomes de seus próprios parentes idosos no banco de dados de clientes para garantir que nenhum deles estivesse comprando os produtos da companhia.
Na justiça
Há mais de três décadas, órgãos reguladores tentam impedir que a “The Agora” adote o que classificam como promessas falsas em seu marketing. Em 2003, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (Securities and Exchange Commission, SEC) processou várias subsidiárias da Agora por veicularem dicas de negociações com informações privilegiadas, o que levou um juiz a determinar o pagamento de US$ 1,5 milhão (R$ 8,34 milhões) em ressarcimentos e multas civis. Depois, o juiz concluiu que a Agora Inc., empresa-mãe, não havia cometido irregularidades.
Em 2016, outra subsidiária da Agora foi processada pelos procuradores-gerais da Pensilvânia e do Oregon por enganar consumidores, alegando falsamente que poderiam receber benefícios oriundos de antigos acordos com a indústria do tabaco. A empresa fechou acordo com ambos os estados.
Em 2019, a Comissão Federal de Comércio (Federal Trade Commission FTC) processou diversas entidades da Agora por promoverem produtos que prometiam uma cura fraudulenta para o diabetes tipo 2, além de informações sobre um programa de benefícios do governo que não existia. No final de 2021, a empresa fez um acordo com a FTC e foi obrigada a reembolsar quase 35 mil americanos que haviam pago por esses produtos. Os reembolsos somaram mais de US$ 2 milhões (R$ 11,12 milhões). A empresa não admitiu culpa e declarou ao jornal Baltimore Sun que ficou aliviada por poder voltar a publicar novos conteúdos para seus clientes.
Apesar das ações regulatórias, a “The Agora” parece ter feito pouco para mudar suas práticas — e está posicionada para continuar seus métodos em um momento em que Trump enfraqueceu a fiscalização dos direitos do consumidor, as redes sociais relaxaram no combate a mensagens enganosas e a desconfiança nas instituições atinge níveis recordes. De acordo com Bonnie Patten, diretora da organização sem fins lucrativos Truth in Advertising (TINA), “esse é o cenário perfeito para uma empresa como a Agora manipular consumidores nos EUA.”
Histórico
Bill Bonner, fundador da The Agora, e Addison Wiggin, que lançou várias empresas do grupo, vêm vendendo conselhos de investimento desde os primórdios da internet. No início dos anos 2000, a dupla coescreveu dois best-sellers do New York Times — Financial Reckoning Day e Empire of Debt.
Bonner tornou-se colaborador do Business Insider, e Wiggin colaborou com a Forbes – sem publicar desde 2015. Hoje, a partir de um quarteirão de luxuosas casas geminadas no centro de Baltimore, a companhia que construíram oferece mais de cem boletins informativos focados em investimentos e “saúde natural”, distribuídos por meio de uma rede de mais de 20 editoras subsidiárias.
Bonner e a atual CEO da Agora, Erika Nolan, não responderam aos pedidos de entrevista nem de comentários para esta reportagem. Wiggin chegou a responder e agendou uma entrevista com a Forbes, mas não compareceu.
Depois, disse por e-mail que havia encaminhado a correspondência para o departamento jurídico da Agora Companies e não respondeu a novas mensagens.
Passo a passo
O primeiro contato de muitas pessoas com a “The Agora” acontece por meio de anúncios no Facebook ou Instagram, que provocam curiosidade com alguma nova ameaça ou descoberta chocante. A estratégia é conhecida como copywriting: a criação de anúncios persuasivos com o objetivo de gerar uma compra imediata.
Ao clicar no post, o usuário é direcionado a uma página com um vídeo longo, conhecido internamente pela Agora como VSL (video sales letter), que pode durar uma hora ou mais. Cada vídeo apresenta um “guru” da área financeira ou da saúde — uma figura criada pela Agora para personificar suas operações.
A The Agora já recrutou diversas figuras públicas para atuar como “mentores” ao longo dos anos, aproveitando suas reputações para converter potenciais clientes. Já foram “gurus” da Agora nomes como Robert Kiyosaki, palestrante motivacional atualmente falido e autor de “Pai Rico, Pai Pobre”; James Altucher, podcaster de criptomoedas que fundou a antiga rede social financeira StockPickr e escreveu o livro de autoajuda financeira “Escolha Você Mesmo”; e Whitney Tilson, ex-candidato democrata à prefeitura de Nova York e cofundador da Teach For America.
No manual da Agora, os “gurus” vendem inicialmente uma assinatura de boletim informativo com preço acessível. Em uma promoção atual, um homem calvo de paletó aparece diante de uma bandeira dos Estados Unidos e uma estante de livros com letras douradas, explicando que o presidente Trump pode e irá concorrer a um terceiro mandato – legalmente, ele não pode. O homem afirma que está se arriscando pessoalmente para revelar segredos de mercado que podem enriquecer você, se assinar seu texto por US$ 49 (R$ 272,44).
Após essa venda inicial — conhecida como “front end” — o comprador começa a receber ofertas do “back end” da Agora, como a chance de ingressar em um clube exclusivo de investimentos por US$ 10 mil (R$ 55.600), ou participar de um seminário sobre seleção de ações por US$ 2 mil (R$ 11.120).
É no “back end” que a Agora realmente lucra. Além de uma variedade de boletins informativos com ofertas especiais e clubes exclusivos, as subsidiárias da empresa também vendem suplementos alimentares e outros produtos de bem-estar, por meio de mais de uma dúzia de marcas. As ofertas incluem coquetéis com nomes chamativos, como Memotex (para memória), Virasurge (função sexual) e Ultra Vital Gold (antienvelhecimento). Uma das companhias da Agora também comercializa um purificador de água chamado Turapür, que promete “transformar água comum da torneira na fonte antioxidante da energia”.
Em um vídeo no YouTube de 2017, no formato Ask Me Anything (“Pergunte-me Qualquer Coisa”), um funcionário da Agora explicou como o sistema funciona. “Uma das promoções que talvez você tenha visto é que um cientista alemão descobriu a cura para o câncer em 1944, e os poderosos esconderam isso de nós até agora”, explicou o diretor de marketing da Agora, Matt Lazas. “Usamos um modelo baseado em grandes ideias e boletins informativos longos para atrair os clientes, e depois, no back end, temos um portfólio completo de suplementos com os quais monetizamos esses clientes.”
A Agora tornou-se uma gigante das redes sociais, veiculando anúncios no valor de milhões de dólares no Facebook e no Instagram, a partir de contas com nomes como “America’s Secret Fund”.
Manipulação digital
No YouTube, um post recente da Agora prometia “uma nova onda de riqueza com IA” que, segundo um de seus mentores, “será 14 vezes maior do que os chatbots, a IA generativa e a IA quântica juntas”. Publicado a partir do canal com o identificador @novileanlifedaily5807 e o título Opportunistic Trader, o vídeo já havia sido visualizado mais de 840 mil vezes. Outra propaganda em texto do Google prometia um “método comprovado” para obter “ganhos de mais de 300% em ações às 9h30”. O Google removeu os dois anúncios após receber questionamentos da Forbes sobre eles.
A Meta removeu muitos dos anúncios da Agora, assim como algumas das páginas e contas que os publicavam. No entanto, centenas de outros continuam sendo exibidos. No início deste ano, o Wall Street Journal constatou que a Meta raramente rompe completamente com anunciantes que investem grandes somas, e a própria plataforma reconheceu que enfrentava “uma epidemia de golpes” cada vez mais sofisticados. O New York Times também revelou recentemente que o YouTube relaxou sua aplicação de políticas que, por anos, proibiram desinformações prejudiciais em sua plataforma.
Em muitos aspectos, a estratégia da Agora nas redes sociais reflete sua estrutura corporativa. Hoje, a empresa afirma reunir mais de 20 companhias, embora, ao longo de seus 45 anos de história, esse número já tenha sido ainda maior. No LinkedIn, um ex-funcionário descreveu o que chamou de “modelo polvo”. Segundo ele, operar como um conjunto de subsidiárias, em vez de uma empresa centralizada, estimula a concorrência interna — e também significa que, quando uma subsidiária enfrenta problemas, esses problemas raramente chegam ao topo. “Nem Bill Bonner nem Mark Ford, outro líder da Agora, jamais foram presos ou acusados de fraude ou má conduta”, escreveu ele ao concluir a explicação do “modelo polvo”.
Bonnie Patten, da Truth In Advertising, também comentou sobre a estratégia, mas escolheu uma criatura ligeiramente mais vívida para compará-la: “A Agora é uma hidra de várias cabeças. Eles possuem dezenas de publicações para enganar e manipular consumidores.”
Por mensagem de texto, Wiggin disse à Forbes que achava que o modelo polvo “soa menos promissor do que o modelo de ‘livre mercado’ que a Agora historicamente usava”. Quando questionado sobre o que era esse modelo de livre mercado da Agora, Wiggin enviou à Forbes resultados de busca do Google com dois economistas da Universidade George Mason, antes de reconhecer que nenhum deles jamais esteve afiliado à empresa. A Forbes perguntou a Wiggin sobre a relação histórica específica da Agora com os princípios do livre mercado, ao que ele respondeu: “Provavelmente compartilharia, mas eu não te conheço.”
Wiggin observou que não fez parte dos processos da SEC ou da FTC e disse que a mensagem da Forbes foi a primeira vez que ouviu falar da Truth in Advertising.
O fundador da Agora, Bill Bonner, atualmente conduz grande parte de seus negócios — e realiza eventualmente retiros da empresa — a partir de um castelo na França que ele e sua esposa compraram e reformaram em 2009. Desde então, Bonner já sediou eventos sobre copywriting e encontros com funcionários da Agora no local. Ele abriu uma biblioteca na propriedade para membros do “Oxford Club” da Agora e oferece a esses mesmos participantes a possibilidade de alugar o castelo inteiro.
Além dessa propriedade de Bonner, a Agora mantém um império em expansão ao redor do mundo. No Reino Unido, opera por meio da subsidiária Southbank Research, oferecendo acesso a muitos dos mesmos “gurus” que anuncia nos Estados Unidos. Na Índia, a afiliada EquityMaster publica dezenas de boletins com nomes como Hidden Treasure, Double Income e Lazy Millionaire, com preços que ultrapassam cem mil rúpias.
Outras ramificações da Agora oferecem produtos similares na Alemanha, Japão, Irlanda, Austrália e França. A empresa também comprou e restaurou mais de uma dúzia de prédios históricos em Baltimore, embora tenha anunciado planos de vender parte dessas propriedades no início do ano passado.
Política e falsas promessas
Nos Estados Unidos, a Agora atuou no campo político. Ela já alugou listas de e-mails de influenciadores conservadores de destaque, como Mike Huckabee e Newt Gingrich, e chegou a empregar diretamente ao menos uma figura do campo político conservador como guru: Sebastian Gorka, ligado ao entorno de Trump, foi um dos autores de boletins da Stansberry Research, antiga subsidiária da Agora, nos anos de 2020 e 2021.
No ano passado, a Paradigm Press, outra subsidiária da Agora, veiculou anúncios no Facebook e Instagram que mostravam a vice-presidente Kamala Harris com chifres de diabo, injetando vacinas à força em crianças. Poucos dias antes das eleições, enquanto a votação já estava em andamento, anúncios da Agora afirmavam que a eleição poderia ser — ou já teria sido — cancelada ou adiada, e que, claro, seus boletins revelariam como lucrar com isso.
Dois ex-funcionários da Agora relembraram um slogan popular nos escritórios da empresa em Baltimore: “Se um democrata estiver no poder, venda com base no medo; se for um republicano, venda com base na ganância.” As publicações da Agora já expressaram opiniões variadas sobre as políticas de Donald Trump — do exageradamente positivo ao apocaliptico —, mas todas parecem concordar que Trump rende bom conteúdo.
Nem todos os produtos da Agora têm um viés político. Além do seu principal negócio de copywriting, a empresa também administra uma companhia de “serviços administrativos”, vende softwares de análise de ações e gerencia um resort de luxo na Nicarágua, que oferece cotas de tempo compartilhado, workshops de respiração holotrópica e uma “experiência de longevidade e vitalidade”.
Durante a apuração desta reportagem, a Forbes criou um novo endereço de e-mail para se inscrever em dois boletins gratuitos da Agora. Diversos e-mails enviados para esse remetente prometiam que os participantes de um evento aprenderiam sobre “uma colher de chá diária que derrota” o diabetes tipo 2, uma “cura esquecida para artrite que reverte a dor em 82% dos pacientes” e um tratamento contra o câncer “15 vezes mais potente do que quimioterapia, radioterapia e cirurgia.” O evento era gratuito, mas vendia um pacote chamado “Plano Mestre para Combater Doenças”, por US$ 2.460 (R$ 13.677,60).
Outra promoção por e-mail prometia revelar um “Remédio Natural contra o Câncer” que “simplesmente o elimina; o câncer começa a morrer.” Os espectadores dessa promoção eram incentivados a adquirir o “Protocolo Definitivo para Derrotar o Câncer”, produzido pelo Dr. Richard Gerhauser, disponível por apenas US$ 279 (R$ 1.551,24). Esse “Protocolo contra o Câncer” não é a primeira iniciativa de Gerhauser com a Agora. Na verdade, parece ecoar outro produto da empresa que terminou em descrédito.
Em 2019, o Dr. Gerhauser foi processado pela FTC ao lado de diversas entidades da Agora por conta de um “protocolo” diferente: o Guia do Médico para Reverter o Diabetes em 28 Dias. Na época, a porta-voz da agência de proteção ao consumidor disse que Gerhauser e a Agora “roubaram dinheiro de idosos com mentiras”, e a agência acabou exigindo que a empresa reembolsasse os clientes que compraram o Guia do Médico.
A Forbes entrou em contato com a FTC a respeito do “protocolo contra o câncer” de Gerhauser, mas a agência se recusou a comentar sobre a conduta atual da empresa. Gerhauser não respondeu ao pedido de entrevista.
O post Conselhos Duvidosos no Facebook: Como Esta Empresa Faturou Bilhões apareceu primeiro em Forbes Brasil.