O Tarifaço De Trump e Os Bastidores Geopolíticos Por Trás Da Taxação De 50%

Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.

 O governo Trump redefiniu de 1º para 6 de agosto a data para início da taxação das exportações brasileiras em 50%. Até o momento em que escrevo este artigo, o que temos de concreto é uma longa lista de exceções. Elas incluem suco de laranja, aeronaves, petróleo, fertilizantes e produtos energéticos, além de veículos e peças.

É difícil dizer se haverá negociações adicionais entre os dois países e alguma reversão do quadro. Contudo, considero importante trazer para a reflexão alguns aspectos do atual cenário. O que está em perspectiva é uma das mais significativas mudanças nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

Por mais que na superfície pareça que o foco é a política interna do Brasil, quem acompanha geopolítica certamente já entendeu que essa medida do governo dos Estados Unidos reflete a evolução, e talvez o ápice, de uma tensão de muitos anos e que nada tem a ver com as disputas internas de nossa política local.

O que há nos bastidores do tarifaço contra o Brasil?

A postura agressiva do governo Trump, especialmente quanto aos 50% de taxação sobre nossos produtos, destoando da média de 20% aplicada a outros países, sinaliza que há algo em jogo que pode ser bem maior do que a questão comercial Brasil-Estados Unidos.

Dados recentes da Câmara Americana de Comércio, relativos ao primeiro semestre de 2025, revelam um superávit comercial de US$ 1,7 bilhão dos Estados Unidos em relação ao Brasil nesse período. Essa cifra, significa um aumento em torno de 500% em relação a 2024, desafiando a narrativa de Trump quanto a um suposto “desequilíbrio comercial” que estaria prejudicando os Estados Unidos.

O fato é que muito provavelmente estejamos vivenciando um momento histórico onde a hegemonia americana, que dominou o cenário mundial por décadas, está sendo desafiada especialmente a partir da constituição do BRICS.

A China tornou-se o maior parceiro comercial de mais de 150 países, incluindo o Brasil, e essa mudança no eixo econômico global está forçando os Estados Unidos a reagirem de forma cada vez mais contundente.

O papel do Brics na equação geopolítica

Como membro do BRICS, o Brasil faz parte de um bloco que representa uma alternativa real ao domínio econômico norte-americano. As decisões tomadas na última cúpula do BRICS, realizada no início deste mês no Rio de Janeiro, foram bastante ostensivas quanto às práticas comerciais dos Estados Unidos.

Iniciativas discutidas, como por exemplo, a criação de um sistema de pagamentos alternativo ao Swift (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), vigente desde 1973 e no qual os Estados Unidos tem forte influência, são vistas pelo governo estadunidense como um ataque à hegemonia do dólar como moeda de reserva global e como uma ameaça à capacidade dos EUA de impor sanções financeiras a outros países.

Além disso, a discussão sobre aumento da participação do ouro nas reservas cambiais dos bancos centrais sinaliza um movimento econômico importante que pode culminar na diminuição da prevalência do dólar e uma maior autonomia comercial e financeira do chamado Sul Global.

Obviamente essa movimentação com a convergência de interesses de vários países, incomoda os Estados Unidos, a quem não interessa permitir um realinhamento de poderes entre nações que possa ameaçar sua liderança.

A hegemonia do dólar está em xeque?

É um tema complexo, mas precisamos visitar alguns aspectos da história para entender o essencial por trás de toda essa crise:

Desde os acordos de Bretton Woods, (que reorganizaram o sistema financeiro internacional após a II Guerra Mundial), e posteriormente com o acordo do petrodólar, que estabeleceu o dólar como moeda padrão para a venda global de petróleo, os Estados Unidos conseguiram financiar sua expansão econômica e militar controlando a moeda de reserva mundial.

Esse poder, sempre assegurou aos Estados Unidos a possibilidade de emitir dívida e financiar suas necessidades sem qualquer tipo de restrição. E aqui faço uma interrupção no raciocínio para sugerir que você pesquise sobre o fim de Bretton Woods, e como isso favoreceu ainda mais os Estados Unidos. Um favorecimento que, aliás, encontra-se fortemente ameaçado no novo cenário mundial.

O BRICS e seus aliados estão desenvolvendo mecanismos que visam reduzir cada vez mais a dependência do dólar americano e isso significa uma ameaça a um modelo econômico que sustenta o poder dos Estados Unidos há décadas.

As exportações brasileiras no centro da disputa

Uma simples pesquisa no site do Comex Stat, do governo federal, permite perceber que o Brasil possui recursos estratégicos de interesse mundial. Nossas reservas de commodities agrícolas e minerais, especialmente as chamadas terras raras, elementos químicos essenciais para tecnologias avançadas, como por exemplo a de semicondutores, nos colocam em posição privilegiada na transição energética e tecnológica global.

Acontece, porém, que nossa dependência financeira da exportação de commodities, combinada com a falta de um plano nacional de desenvolvimento tecnológico, torna o Brasil vulnerável a pressões externas como é o caso dessa taxação definida pelo governo Trump.

O impacto real do tarifaço e o recado de Trump

As consequências práticas de uma taxação de 50% sobre nossos produtos impactam de forma significativa setores como agronegócio, mineração e manufaturados, afetando diretamente a competitividade brasileira no mercado estadunidense, que é nosso segundo maior parceiro comercial.

Do ponto de vista da economia como um todo, relatórios de analistas de comércio exterior apontam que o impacto sobre a eventual queda nas exportações, não chega a significar uma recessão, apesar de impor sacrifícios relevantes a alguns setores e impacto de pelo menos 0,5% no PIB até que se encontre novos mercados ou uma via de negociação quanto às taxas dos EUA.

Até aqui, penso que já ficou claro para você que o tarifaço de Trump, muito mais que uma questão econômica isolada, é uma demonstração de força que visa “mandar um recado” a outros países latinoamericanos que estejam considerando fortalecer laços com a China ou outros parceiros não alinhados aos interesses dos Estados Unidos.

Alguns especialistas em relações internacionais têm apontado, contudo, que essa conduta reativa do governo Trump pode estar revelando a fragilidade estrutural da economia de seu país que, com um endividamento superior a 37 trilhões de dólares, vem dependendo há décadas de mecanismos financeiros artificialmente sustentados, incluindo sanções, para manter seu domínio financeiro global.

Sobre soberania e perspectivas

Me parece que há muito tempo não ouvíamos tanto a expressão “soberania nacional” nos noticiários. Em um momento no qual todos os temas estão fortemente politizados (e infelizmente polarizados), ter uma negociação comercial e diplomática passando por questões internas acirra os humores e as narrativas, e acabamos enveredando por pautas que em nada contribuem para o real problema.

Enquanto o país não tiver um plano claro de desenvolvimento focado em valorizar recursos naturais e tecnológicos abundantes e que possibilite maior protagonismo no cenário internacional, seguiremos sendo meros fornecedores de matérias primas e objeto de disputa política e econômica entre potências internacionais.

O tarifaço de Trump é o grande “abacaxi” que o governo tem que resolver nesse momento e certamente o caminho diplomático é o mais racional a tomar. O Brasil, como detentor de recursos estratégicos, tem todas as condições de sair fortalecido desse momento de reconfiguração de forças globais, desde que o governo saiba navegar com inteligência, estratégia e sem paixões.

Países do BRICS, União Europeia e outras nações podem se tornar destinos ainda mais importantes para nossas exportações. Se soubermos fazer nossa lição de casa direito, toda essa dura experiência pode significar uma ampliação do debate em torno de políticas que acelerem a diversificação de mercados e parceiros comerciais.

 

Eduardo Mira é investidor profissional, analista CNPI-T (Anbima), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira, empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos. Está nas redes sociais como @professormira

O post O Tarifaço De Trump e Os Bastidores Geopolíticos Por Trás Da Taxação De 50% apareceu primeiro em Forbes Brasil.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima