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O café de cogumelo existe desde a década de 1940, porém levou mais de 75 anos para se tornar a “próxima grande novidade” no setor de bebidas. A Ryze surgiu como líder do novo boom, produzindo este café a partir de uma mistura de seis cogumelos orgânicos cultivados na Califórnia e em Nevada (além de grãos de café Arábica do México).
A Forbes estima, de forma conservadora, que a Ryze registrou mais de US$ 300 milhões (R$ 1,81 bilhão) em receita anual no ano passado — um aumento de 50% em relação ao período anterior.
Fundada pelo CEO Rashad Hossain, que foi Forbes 30 Under 30 em 2023, e pela diretora de marketing Andrée Werner, a empresa sediada em Boston alcançou esse marco sem nunca ter vendido seus produtos em uma loja física.
Essa realidade muda agora, visto que a Ryze, já consolidada como a marca de café de cogumelo mais vendida nos Estados Unidos, faz sua estreia nesta semana em mais de 1.900 lojas da Target, grande rede varejista americana. A marca ocupará o espaço de nomes tradicionais do setor com uma linha de três sabores exclusivos de latte, além de seu café instantâneo e sticks para preparo rápido.
“Isso nos dá a validação de que tudo o que construímos nos últimos cinco anos realmente tem fôlego para ser um verdadeiro disruptor do café”, afirma Hossain, de 31 anos. “Faremos um lançamento de grande porte e vamos aproveitar ao máximo.”
Andrée Werner, de 32 anos, acrescenta: “Não somos videntes, por isso não sei o que o futuro reserva para 2026. Queremos apenas realizar um excelente trabalho neste lançamento no varejo e colocá-lo nas mãos do maior número possível de clientes”.
Expansão e mercado funcional
Hossain e Werner fundaram a Ryze em 2020 como uma alternativa mais saudável e que auxilia o sistema imunológico em relação à xícara de café tradicional.
Nos últimos cinco anos, milhões de pessoas adquiriram a bebida com baixo teor de cafeína pela internet, optando frequentemente por uma assinatura, que pode variar entre US$ 80 (R$ 484) e US$ 100 (R$ 605) por mês.
Um pacote de café de 170 gramas custa US$ 45 (R$ 272,25). A Ryze não divulgou sua taxa de recompra, contudo apontou seu grupo privado no Facebook, com cerca de 500 mil membros, como prova de sua base fiel de seguidores.
A Ryze e seus principais concorrentes, incluindo Everyday Dose, MudWtr, Four Sigmatic e Om, detêm agora, em conjunto, US$ 1 bilhão (R$ 6,05 bilhões) em vendas anuais no varejo, conforme dados da consultoria Grand View Research.
As marcas de café de cogumelo também impulsionam o crescimento no mercado de bebidas funcionais, através de produtos que prometem auxiliar a imunidade, a digestão e oferecer outros benefícios à saúde.
Este setor atingiu US$ 50 bilhões (R$ 302,5 bilhões) em vendas anuais no varejo no ano passado e projeta alcançar US$ 62 bilhões (R$ 375,1 bilhões) até 2027. Hossain e Werner afirmam que o lançamento na Target ajudará a Ryze a atender a essa demanda em escala e levar o café funcional para um público maior.
A mistura específica de cogumelos da Ryze (Juba de Leão, Cordyceps, Reishi, Cauda de Peru, Shiitake e Cogumelo do Rei) é comercializada com a promessa de aumentar a energia, apoiar a clareza mental e promover a saúde intestinal.
Embora os cogumelos sejam ricos em antioxidantes e existam estudos científicos sobre os benefícios de espécies específicas, não há estudos clínicos em humanos que comprovem alegações médicas sobre o café de cogumelo.
O crescimento da marca ocorreu no momento em que os preços do café encerraram 2025 com alta de até 50%. O aumento ocorreu por causa de secas que reduziram a oferta e do impacto de tarifas dos Estados Unidos sobre países produtores de café.
Desafios de retenção e lucratividade
Diante desses ventos econômicos favoráveis, a Ryze pode estar a caminho de se tornar uma marca bilionária. A Forbes estima que, se a Ryze fosse adquirida, poderia valer o dobro de sua receita, ou US$ 600 milhões (R$ 3,63 bilhões). A Forbes projeta que os cofundadores possuem, juntos, 60% da empresa. O negócio divulgou apenas ter captado um financiamento modesto de US$ 4,15 milhões (R$ 25,1 milhões).
Entretanto, fontes do setor afirmam que a empresa esteve à venda em 2025 e não encontrou compradores credíveis, o que coloca em dúvida sua trajetória de longo prazo. A Forbes estima que o negócio é pouco lucrativo, com uma margem Ebitda em 2025 estimada em 3%.
Investidores e consultores do setor de cogumelos acreditam que a Ryze gasta uma quantia excessiva em marketing e aquisição de clientes on-line. Em consequência dessas táticas, a Ryze teria uma rotatividade de clientes considerada muito alta entre os usuários que cancelaram suas assinaturas.
Alguns investidores descrevem a estratégia como “crescimento a qualquer custo”. “Vimos táticas que não empregaríamos porque, se você pensa na sustentabilidade de longo prazo e se preocupa com números de retenção, talvez não as utilize”, afirma um investidor.
Ele acrescenta que o mercado deu um sinal: se esses números fossem combinados com boa retenção e satisfação do cliente, a empresa seria muito valiosa, porém o fato de não ter sido vendida diz muito.
Trajetória dos fundadores
Hossain afirma não ter pressa para vender e que a Ryze está concentrada em construir lealdade à marca no longo prazo. Ele cresceu em Boston em um pequeno apartamento de um quarto com pais que imigraram de Bangladesh e trabalhavam em vários empregos.
“Embora o dinheiro fosse curto na minha infância e a comida fosse escassa”, conta ele, “meus pais me ensinaram as coisas certas para manter a cabeça erguida. Eu os vi batalhando dia após dia para me dar uma vida melhor”.
Esse esforço o motivou a querer realizar algo extraordinário. Ao estudar economia em Harvard, ele se interessou por nutrição, o que o levou ao seu primeiro emprego na gestão de marcas da Kraft Heinz, com foco no negócio de café, incluindo a Maxwell House.
Werner, amiga próxima de Harvard que se formou em matemática aplicada em 2016, foi sua confidente quando ele se sentiu desanimado com a falta de inovação no setor. Após três anos, ele deixou a Kraft Heinz para iniciar sua própria marca. Werner, que havia concluído seu mestrado na Julliard como violoncelista, uniu-se a Hossain para fundar o negócio.
Para lançar a Ryze, cada um investiu US$ 15 mil (R$ 90,75 mil) de suas próprias economias, e amigos e familiares de Werner aportaram outros US$ 70 mil (R$ 423,5 mil). A marca foi lançada em junho de 2020 e registrou apenas US$ 120 mil (R$ 726 mil) em receita naquele primeiro ano.
Disputa acirrada no setor
As vendas continuaram a crescer e, após garantir mais US$ 2,15 milhões (R$ 13 milhões) em financiamento em janeiro de 2023, a receita saltou dez vezes, superando estimados US$ 100 milhões (R$ 605 milhões) em 2023. Esse crescimento expressivo seguiu em 2024, quando a Ryze estreou na Amazon e rapidamente se tornou a alternativa de café mais vendida no site.
Contudo, as vendas também dispararam para os principais concorrentes. A Everyday Dose deve ter alcançado US$ 100 milhões (R$ 605 milhões) em receita em 2025. Já a MudWtr, que expandiu para a Target no início de 2024, registrou receita anual estimada em US$ 60 milhões (R$ 363 milhões) no ano passado.
Tero Isokauppila, CEO da Four Sigmatic, outra concorrente que registra mais de US$ 50 milhões (R$ 302,5 milhões) em receita anual , afirma que algumas marcas on-line cresceram de forma muito agressiva. Ele demonstra preocupação com alegações em redes sociais que dizem que as bebidas de cogumelo podem reduzir acne ou gordura abdominal, o que não possui embasamento científico.
“O aumento da concorrência é bom, mas me preocupo em enganar os consumidores e criar desconfiança”, afirma Isokauppila. Como ele aponta, investidores e consultores questionam se o café de cogumelo é um modismo ou uma bolha prestes a estourar.
Hossain e Werner seguem acreditando que podem navegar pela concorrência e destacam que a Ryze possui clientes fiéis que inseriram a bebida em suas rotinas diárias. “Há algo muito poderoso em transformar seu produto em parte da vida cotidiana de alguém, a ponto de a pessoa não conseguir passar o dia sem ele”, conclui Werner.
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