A Capital One Financial Corp. anunciou, na última semana, o acordo para adquirir a Brex, plataforma financeira nativa em Inteligência Artificial. A transação, composta por dinheiro e ações, é avaliada em US$ 5,15 bilhões, cerca de R$ 27,295 bilhões.
A aquisição, com previsão de fechamento para o segundo trimestre de 2026, marca uma consolidação relevante no setor de pagamentos corporativos e uma mudança estratégica para a Capital One em sua busca pela liderança da infraestrutura bancária americana moderna.
Para a Capital One, o grande trunfo é a arquitetura de IA baseada em agentes da Brex que significa uma visão de futuro detalhada recentemente pelo CTO da companhia, James Reggio.
Em entrevista exclusiva à Forbes US, Reggio delineou uma mudança nos serviços financeiros impulsionada não apenas pela automação, mas por uma alteração fundamental no perfi l de talentos do departamento financeiro. “Acreditamos que a IA vai deslocar uma parcela crescente da equipe financeira para o trabalho estratégico”, afirmou Reggio. Assim como as funções de Excel se tornaram um diferencial há 20 anos, o CTO prevê que a capacidade de criar agentes de IA será o novo padrão básico para os profissionais da área.
Eficiência operacional via agentes de auditoria
Para facilitar essa mudança, a Brex lançou recentemente um conjunto de agentes de IA projetados para assumir funções específicas dentro de uma equipe financeira. Em vez de ferramentas de conversação simples, esses agentes funcionam como braços externos que executam Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) delegados.
- O Agente de Auditoria: a ferramenta internaliza a política de despesas da empresa e revisa 100% das transações em busca de desperdícios, fraudes e erros.
- O Agente de Contabilidade: foca no fechamento mensal e na classificação automatizada de lançamentos.
- Suporte ao Colaborador: os agentes também auxiliam gestores na documentação e no preenchimento de relatórios de despesas.
“Nossa visão é que estamos construindo este ecossistema de agentes que podem colaborar entre si para assumir funções que podem não ser estratégicas em sua equipe financeira”, explicou Reggio.
A superação da lacuna de confiança na tecnologia
Um dos principais obstáculos para a adoção da IA em setores altamente regulamentados continua sendo as “alucinações”, situações em que a tecnologia gera informações falsas com aparência de verdade. Reggio argumenta que a indústria está superando essa fase de incerteza por meio de uma jornada gradual de confiança.
A estratégia da Brex consiste em iniciar os usuários com tarefas de baixo risco, como o preenchimento de justificativas em relatórios de despesas. À medida que o sistema armazena dados e demonstra precisão, os usuários avançam para a automação total. Curiosamente, Reggio observou que os agentes de IA já estão superando os humanos em algumas áreas, como no fornecimento de justificativas de negócios claras para despesas.
Inovação e cultura de startup interna
A tecnologia por trás da mais recente plataforma da Brex não foi construída por meio dos processos corporativos tradicionais. Reggio revelou que a companhia formou um centro de excelência interdisciplinar para atuar como uma startup interna, utilizando ferramentas de programação baseadas em agentes para reconstruir a plataforma do zero.
“Tentamos ser nós mesmos a causar a própria disrupção antes que alguma nova empresa anuncie o lançamento de um concorrente no Twitter”, afirmou Reggio. Essa capacidade de manter uma cultura inovadora dentro de um negócio em escala é, provavelmente, o que tornou a Brex um alvo tão atraente para a Capital One.
O futuro da infraestrutura bancária americana moderna
A aquisição valida a tendência de finanças integradas (embedded finance), em que bancos tradicionais utilizam softwares de fintechs para alcançar novos mercados. A Brex já havia iniciado essa jornada por meio de uma parceria com o Fifth Third Bank, integrando suas ferramentas de gestão de despesas aos serviços bancários tradicionais.
Enquanto Pedro Franceschi, fundador e CEO da Brex, se prepara para liderar a marca sob a gestão da Capital One, o foco permanece no “modo fundador”, que busca combinar a velocidade de inovação das startups com a escala massiva e o poder de análise de crédito de um gigante bancário global.