Como esperado pelo mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano pela quinta vez consecutiva, mas indicou que, caso se confirme o cenário esperado, pode iniciar o ciclo de corte dos juros na próxima reunião, em março.
O comitê reforça, contudo, que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta, e não se compromete com tamanho dos cortes e nem o ritmo do ciclo. “O compromisso com a meta impõe serenidade, que dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária”.
Apesar de explícito, o corte foi tratado com muita cautela e termos como calibragem e serenidade sugerem que o ciclo se iniciará ao ritmo de 0,25 ponto percentual em março, diz Étore Sanchez, economista da Ativa. A visão é reforçada por Leonardo Costa, economista do ASA, que vê risco, ainda que menor, de um movimento mais intenso, de 0,50 ponto percentual. A mediana do mercado no Boletim Focus aponta para o corte de 0,50 ponto percentual na próxima reunião.
“A decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”, diz o comunicado do Copom.
O comitê acredita que o cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária. “A estratégia em curso tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”.
A decisão foi unânime, mas a reunião ocorreu com capacidade reduzida, com duas cadeiras vagas no Conselho após as saídas de dezembro e sem substituições ainda indicadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como resultado, Paulo Picchetti acumulou temporariamente as diretorias de Assuntos Internacionais & Gestão de Riscos Corporativos e de Política Econômica, mas teve direito a apenas um voto na decisão.
Evolução dos indicadores
O BC destaca que o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência, ressaltando que, nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes seguiram apresentando arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação.
No cenário do Banco Central, a inflação projetada para o terceiro trimestre de 2027 permanece em 3,2%, estável em relação à reunião de dezembro.
Desde a última reunião o IPCA cheio desacelerou de 4,5% em meados de novembro para 4,26% em dezembro, e as expectativas de inflação se aproximaram da meta (projeções para 2026 caíram 0,14 pontos percentuais. Já os dados de atividade surpreenderam modestamente para cima.
Sinalização explícita é surpresa
Raphael Vieira, co-head de Investimentos da Arton Advisors, analisa que a grande surpresa do comunicado foi o Copom passar a sinalizar, de forma explícita, a possibilidade de início do ciclo de flexibilização já na próxima reunião, ainda que sob forte condicionalidade.
“Na prática, tenta equilibrar duas forças: de um lado, há espaço técnico para começar a cortar juros; de outro, falta confiança para acelerar esse movimento sem comprometer a credibilidade do regime de metas. O tom do comunicado indica que esse início de processo é mais uma decisão de gestão de risco do que uma convicção plena de que a inflação já está controlada”.
Apesar de não divergir muito das expectativas do mercado, Gabriel Barros, economista da ARX, também se surpreendeu com a grande mudança da comunicação. “Me pareceu maior do que a necessária e esperada. Para um Banco Central que vinha seguindo uma estratégia de minimizar a perda máxima do tom duro, a comunicação decepcionou”.
Prova disso é que as projeções para a inflação foram mantidas em 3,2%, aponta. “A referência de serenidade quanto ao ritmo e magnitude do ciclo de corte sendo uma tentativa de evitar uma precificação agressiva pelo mercado. Para quem não queria dar seta, me parece que houve um erro de condução e comunicação com os agentes econômicos”.
Super-quarta
Mais cedo, o Federal Reserve manteve os juros na faixa entre 3,5% e 3,75% ao ano. O movimento ocorre em um momento de forte pressão do governo de Donald Trump para que o BC corte os juros. Assim como aconteceu na reunião passada, a decisão não foi unânime. Dessa vez, dois membros votantes da autarquia votaram por reduzir os Fed Funds em 0,25 ponto percentual. A pausa acontece após três cortes consecutivos.
No comunicado, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) justificou a decisão afirmando que a economia segue crescendo em ritmo sólido, com a baixa recuperação do mercado de trabalho e estabilização da taxa de desemprego. Apesar disso, o colegiado apontou que o nível da inflação permanece elevado — na última divulgação, o núcleo do PCE, considerado a métrica mais importante para o Fed por excluir a movimentação de itens voláteis, mostrou acúmulo de 2,7% em 12 meses, acima da meta de 2%.