Mesmo em um cenário macroeconômico marcado por tensões e incertezas, as perspectivas para o crescimento da riqueza global seguem em alta. Esse avanço é resultado de uma combinação de fatores, como a valorização dos mercados impulsionada pela inteligência artificial (IA), a criação de novas empresas e a aceleração da transferência de fortunas entre gerações.
Segundo o UBS, a riqueza total dos bilionários atingiu o recorde de US$ 15,8 trilhões (R$ 82,90 trilhões) — um aumento de 13% em doze meses. O número de magnatas também chegou a quase 3 mil indivíduos em 2025, uma alta de 8,8% em relação a 2024.
O nicho de tecnologia foi o grande motor desse crescimento, consolidando-se como o maior em termos de valores acumulados. A fortuna dos bilionários no setor avançou 23,8%, impulsionada pela valorização dos ativos de companhias ligadas à IA, como Meta, Oracle e Nvidia. Além disso, o entusiasmo renovado com a tecnologia — incluindo o lançamento de novos modelos de linguagem, como o DeepSeek — ajudou a criar novos ricos.
Por trás da alta está a ascensão de uma nova geração que além de herdar fortunas, redefine a forma como esse capital é multiplicado — seja por meio de herdeiros que rejeitam o papel tradicional de sucessores corporativos ou de novos empreendedores.
Segundo relatório elaborado pelo banco suíço UBS, essas novas ambições bilionárias se estruturam pelo desejo de independência pessoal, mobilidade global e preservação do patrimônio em um ambiente cada vez mais incerto.
Novos “self-made”
Diferentemente do pico de 2021, impulsionado pela liquidez financeira do pós-pandemia, o crescimento de 2025 é sustentado pela criação de empresas em setores como genética, infraestrutura e software de marketing. Nesse contexto, surgiram 196 bilionários que construíram a própria fortuna. Esse foi o segundo maior número de novos empresários self-made da história do levantamento do UBS.
Por meio de herança, de acordo com o banco suíço, 91 pessoas se tornaram bilionárias em 2025. O valor herdado também atingiu um recorde de US$ 297,8 bilhões (R$ 1,5 trilhões), representando um aumento de mais de um terço ante 2024.
O UBS destaca que esse movimento é apenas a ponta do iceberg de uma transferência de riqueza multigeracional que deve movimentar pelo menos US$ 5,9 trilhões (R$ 31,01 trilhões) nos próximos 15 anos.
Além da sucessão patrimonial, outros setores contribuíram para inflar os números globais. No segmento de serviços financeiros, a riqueza cresceu 17%, impulsionada pela valorização dos mercados acionários e pela recuperação das criptomoedas. Já o nicho industrial registrou o crescimento mais acelerado, de 27,1%, puxado principalmente pela reavaliação da SpaceX, de Elon Musk, e pelo desempenho de fabricantes de veículos elétricos como a chinesa BYD.
Na prática, esse avanço da riqueza ocorre porque o mundo atravessa um momento raro em que a inovação tecnológica e a criação de empresas acontecem simultaneamente à transferências de grandes patrimônios entre gerações.
O fim da dinastia tradicional
A principal mudança está na mentalidade das famílias ultra-ricas em relação à sucessão. O modelo clássico, no qual o patriarca ou a matriarca prepara o herdeiro para assumir a presidência da empresa familiar, está sendo substituído.
Hoje, 82% dos bilionários afirmam desejar que seus herdeiros desenvolvam habilidades para alcançar sucesso de forma independente, ou seja, sem depender da herança. Além disso, 67% esperam que os sucessores sigam suas próprias vocações profissionais.
Outra ambição é a mobilidade geográfica. As famílias bilionárias não querem mais ficar restritas a um único território, especialmente diante de instabilidades políticas e econômicas. Atualmente, 36% dos bilionários já mudaram de país ao menos uma vez, enquanto outros 9% consideram essa possibilidade. As motivações envolvem a busca por melhor qualidade de vida, proteção contra riscos geopolíticos e maior eficiência fiscal.
Há também a meta de utilizar a riqueza para filantropia. Mais da metade dos magnatas desejam que seus filhos usem o patrimônio para gerar impacto positivo no mundo. Ao olhar para o futuro, 75% apontam a tecnologia e a inteligência artificial como o desafio social mais urgente a ser gerido, seguidas pelas mudanças climáticas, citadas por 55% dos entrevistados pelo banco.
No campo dos investimentos, a estratégia migrou do crescimento acelerado para uma abordagem voltada a longo prazo. Em outras palavras, está crescendo a ambição de alocar o patrimônio em ativos reais, com aumento da exposição a infraestrutura, citada por 35% dos bilionários, e a ouro e metais preciosos, mencionados por 32%, como forma de proteção contra a volatilidade.
Mesmo que os EUA continue sendo o principal destino dos investimentos, a confiança na região caiu de 80% para 63%. Isso abriu espaço para interesses em outros locais, como Ásia-Pacífico e Europa Ocidental — estima-se que US$ 1,3 trilhão (R$ 6,83 trilhões) seja transferido para a Europa Ocidental nas próximas décadas.
O patrimônio das mulheres bilionárias cresceu 8,4% no último ano — mais que o dobro da taxa registrada entre os homens. A expectativa de uma vida mais longa também está transformando o planejamento patrimonial.
Em torno de 44% dos bilionários acreditam que viverão mais do que imaginavam há uma década. Esse planejamento precisa durar não apenas para os próximos dez anos, mas para várias décadas, garantindo conforto na velhice e continuidade para as gerações seguintes.