No momento de sua morte, em 2019, Jeffrey Epstein era um homem extremamente rico. Entre sua coleção de residências luxuosas, duas ilhas privadas no Caribe e quase US$ 380 milhões (R$ 2,01 bilhões) em dinheiro e investimentos, seu patrimônio era de US$ 578 milhões (R$ 3,06 bilhões), segundo seu espólio.
A forma exata como ele acumulou essa riqueza está no centro do escândalo em curso. A hipótese menos interessante é que os crimes sexuais de Epstein eram separados de seu trabalho como consultor financeiro de bilionários, para os quais oferecia serviços de investimento, planejamento patrimonial e tributário. Em um registro corporativo de 2013, Epstein descreveu a si mesmo como “um financista e empresário experiente e bem-sucedido”, um “empreendedor que construiu várias empresas altamente lucrativas” e “um dos pioneiros dos investimentos baseados em derivativos e opções”.
O cenário mais escandaloso, conforme alegado por muitos apoiadores do presidente Donald Trump e teóricos da conspiração, é que Epstein teria gravado secretamente seus amigos ricos cometendo crimes sexuais com menores vítimas de tráfico em suas casas e ilhas e depois os chantageado — com seu negócio financeiro servindo de fachada.
As origens
As origens completas da fortuna de Epstein permanecem envoltas em mistério, mas o que está claro, segundo análise da Forbes de documentos judiciais, um memorando investigativo e registros financeiros, é que ele contou sobretudo com dois clientes bilionários e um artifício tributário para construir sua fortuna.
Les Wexner, antigo chefe da Victoria’s Secret, e o magnata do private equity Leon Black foram os dois maiores clientes financeiros de Epstein. Dos mais de US$ 800 milhões (R$ 4,24 bilhões) em receita que seus dois principais negócios geraram entre 1999 e 2018, segundo demonstrações financeiras obtidas por uma ação de registros públicos movida pelo New York Times, Epstein recebeu ao menos US$ 490 milhões (R$ 2,60 bilhões) em honorários, com o restante vindo de ganhos de investimentos. Wexner e Black forneceram mais de 75% da renda em taxas de Epstein ao longo desse período, de acordo com estimativas da Forbes.
Essas entidades, ambas sediadas nas Ilhas Virgens Americanas, foram as únicas empresas “geradoras de receita” de Epstein de 1999 até sua morte, segundo um relatório especializado apresentado por um contador em um caso de 2022 movido pelo governo das Ilhas Virgens Americanas contra o JPMorgan Chase. Embora Trump e Epstein tenham sido amigos por muitos anos, não há evidências de que tenham feito negócios juntos. Eles teriam rompido após competir pela compra da mesma propriedade em Palm Beach, em 2004; Trump venceu.
Wexner, 87, fundador da gigante do vestuário Limited, foi o principal cliente de Epstein de 1991 a 2007, antes de os dois se desentenderem, e pagou a ele um valor estimado em US$ 200 milhões (R$ 1,06 bilhão) ao longo dos anos. Black, 73, fundador da Apollo Global Management, pagou US$ 170 milhões (R$ 901 milhões) entre 2012 e 2017, segundo uma investigação independente do escritório de advocacia Dechert LLP sobre a relação entre Black e Epstein e pesquisas adicionais do Comitê de Finanças do Senado.
Epstein conseguiu acumular sua riqueza praticamente livre de impostos graças a generosas isenções fiscais nas Ilhas Virgens Americanas, onde se tornou residente em 1996 e abriu uma empresa de consultoria financeira chamada Financial Trust Company dois anos depois — o mesmo ano em que gastou quase US$ 8 milhões (R$ 42,4 milhões) para comprar a ilha Little St. James, que desde então ficou conhecida como “ilha dos pedófilos” por seu papel em sua rede de tráfico sexual.
Documentos judiciais mostram que, entre essa empresa e a Southern Trust Company — fundada em 2011 e que assumiu como seu principal negócio no ano seguinte — Epstein obteve benefícios sob o programa de desenvolvimento econômico do território que lhe economizaram US$ 300 milhões (R$ 1,59 bilhão) em impostos entre 1999 e 2018. Ao longo desse período, ele recebeu ao menos US$ 360 milhões (R$ 1,91 bilhão) em dividendos de suas empresas.
Wexner e Black pediram desculpas por suas associações com Epstein e afirmaram não ter conhecimento de seus crimes sexuais. Wexner deixou o cargo de CEO da L Brands em 2020 e disse, em uma carta publicada naquele ano, que “não teria continuado a trabalhar com qualquer indivíduo capaz de um comportamento tão grave e repugnante” se soubesse. Black declarou, em uma teleconferência de resultados de 2020, que “lamentava profundamente” sua associação com Epstein; o relatório da Dechert não encontrou “nenhuma evidência de que Black… tenha se envolvido de qualquer forma nas atividades criminosas de Epstein”. Em 2021, ele deixou o cargo de CEO da Apollo e sua posição como presidente do Museum of Modern Art. Porta-vozes de Wexner e Black se recusaram a comentar para este artigo.

Cartela de clientes
Os dois não foram os únicos clientes de Epstein. A herdeira da Johnson & Johnson Elizabeth Johnson (falecida em 2017) também foi cliente, enquanto o fundo de hedge Highbridge Capital Management, do bilionário Glenn Dubin, pagou US$ 15 milhões (R$ 79,5 milhões) a Epstein por apresentar a empresa ao JPMorgan Chase, que adquiriu participação majoritária na Highbridge por US$ 1,3 bilhão (R$ 6,89 bilhões) em 2004. Naquele ano — o melhor de sua história — Epstein faturou US$ 127 milhões (R$ 673,1 milhões), enquanto sua empresa atingiu US$ 476 milhões (R$ 2,52 bilhões) em ativos líquidos.
Epstein também trabalhou com um ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, chefes de Estado, laureados do Nobel e filantropos proeminentes, segundo Black, que não citou nomes. Em certo momento, Epstein teria afirmado trabalhar apenas com pessoas com patrimônio mínimo de US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões). As únicas transações tornadas públicas entre as empresas de Epstein e seus clientes são os US$ 170 milhões (R$ 901 milhões) pagos por Leon Black e os US$ 15 milhões (R$ 79,5 milhões) da Highbridge, conforme detalhado na investigação da Dechert e na ação do governo das Ilhas Virgens Americanas contra o JPMorgan Chase.
Foi Wexner, mais do que qualquer outro, quem lançou as bases da fortuna de Epstein. Nascido em 1937, em Dayton, Ohio, Wexner fundou a varejista The Limited em 1963 e a transformou em um negócio bilionário com marcas populares como Victoria’s Secret e Bath & Body Works. Ele conheceu Epstein — um ex-trader da Bear Stearns — por meio de um conhecido em comum na década de 1980. Encantado pelo homem carismático 15 anos mais jovem, Wexner o contratou para ajudar a administrar sua fortuna. Em 1991, Epstein detinha plenos poderes por procuração sobre as finanças de Wexner.
Não está claro exatamente quanto Wexner pagou a Epstein ao longo da relação. A Forbes estima mais de US$ 200 milhões (R$ 1,06 bilhão) até 2007. Fontes próximas a Wexner disseram ao Wall Street Journal acreditar que o valor foi “ao menos US$ 200 milhões”.
Bens e reveses
E isso era apenas em dinheiro. Epstein viveu por anos na casa de 2.600 metros quadrados de Wexner, em Manhattan, antes de o empresário transferir oficialmente a escritura do imóvel para ele em 2011. Uma pessoa disse ao Journal que Epstein pagou US$ 20 milhões (R$ 106 milhões) pela residência em 1998, mas não há registros públicos da transação. O imóvel valia US$ 56 milhões (R$ 296,8 milhões) quando ele morreu, em 2019.
Epstein pagou US$ 3,5 milhões (R$ 18,55 milhões) por uma casa no condomínio de Wexner, New Albany, Ohio, em 1993, antes de revendê-la por US$ 8 milhões (R$ 42,4 milhões) em 1998 para uma empresa associada a Wexner. Ela tem o mesmo endereço postal da New Albany Company, de Wexner, onde Epstein também figurava como diretor em 1998. Um dos jatos de Epstein — um Boeing 727 apelidado de “Lolita Express” — também pertenceu à Limited de Wexner de 1990 a 2001, quando foi transferido para Epstein por um valor desconhecido.
Os dois romperam em 2007 após Epstein desviar ao menos US$ 46 milhões (R$ 243,8 milhões) de Wexner, escreveu o magnata do varejo em uma carta de 2020. O fim do patrocínio de Wexner aparentemente representou um duro golpe para Epstein. De 2000 a 2006, a Financial Trust Company — seu principal negócio à época — gerou US$ 300 milhões (R$ 1,59 bilhão) em honorários, segundo demonstrações financeiras incluídas em registros judiciais. Nos seis anos seguintes, o negócio gerou menos de US$ 5 milhões (R$ 26,5 milhões).
Logo após Wexner cortar relações, Epstein sofreu outro revés: a crise financeira de 2008. Entre 2008 e 2012, a Financial Trust registrou perdas líquidas de US$ 166 milhões (R$ 879,8 milhões), enquanto ele lidava com a perda de seu maior cliente e dezenas de milhões de dólares em investimentos em queda. Sua reputação também foi prejudicada depois que se declarou culpado, em 2008, em um tribunal estadual da Flórida, por duas acusações criminais relacionadas à prostituição.
Um homem foi decisivo para o segundo ato de Epstein: Leon Black. O CEO e cofundador da gigante de private equity Apollo Global Management conhecia Epstein desde meados dos anos 1990, e Epstein havia atuado como diretor de sua Black Family Foundation de 1997 a 2007. Em 2012, os dois começaram a discutir a ideia de Epstein assessorar Black em planejamento fiduciário e patrimonial, questões tributárias e filantrópicas e na operação do family office de Black.
Black assinou um acordo com a Southern Trust Company, de Epstein, em fevereiro de 2013, pelo qual ele prestaria serviços relacionados a “questões de planejamento patrimonial referentes aos ativos e ao espólio do sr. Black”, segundo a investigação da Dechert.
Epstein disse a Black que normalmente cobrava US$ 40 milhões (R$ 212 milhões) por ano de seus clientes — um valor que parece improvável, considerando que ele havia acabado de criar a Southern Trust em 2011 e que sua antecessora, a Financial Trust, havia registrado perdas significativas nos cinco anos anteriores. Black transferiu US$ 5,5 milhões (R$ 29,15 milhões) para contas da Southern Trust no Deutsche Bank em 2012, segundo investigação do Comitê de Finanças do Senado, mas o pagamento não aparece no relatório anual da empresa daquele ano.
Em fevereiro de 2013, Black e Epstein concordaram com um pagamento de US$ 23,5 milhões (R$ 124,55 milhões) pelos serviços, negociando mais US$ 56,5 milhões (R$ 299,45 milhões) três meses depois, pagos em parcelas — com Black desembolsando um total de US$ 50 milhões (R$ 265 milhões) em 2013.
Segundo registros financeiros, esses pagamentos representaram quase a totalidade dos US$ 51 milhões (R$ 270,3 milhões) em honorários que a Southern Trust recebeu naquele ano. No ano seguinte, Black concordou em pagar Epstein “conforme a demanda”, sem contrato escrito. Ele pagou US$ 70 milhões (R$ 371 milhões) em 2014 e US$ 30 milhões (R$ 159 milhões) em 2015 por aconselhamento sobre planejamento patrimonial e tributário, auditorias e gestão de sua coleção de arte, family office, iate e avião. Esses pagamentos representaram toda a receita de honorários da Southern Trust em 2014 e mais da metade em 2015. Nesse mesmo ano, Black doou ao menos US$ 10 milhões (R$ 53 milhões) a uma instituição de caridade afiliada a Epstein.
Black aparentemente não pagou nada a Epstein em 2016, e a Southern Trust não reportou receitas de honorários naquele ano. Em 2017, Black fez seu pagamento final de US$ 8 milhões (R$ 42,4 milhões) — as únicas taxas que a Southern Trust declarou ter recebido naquele ano.
Em conjunto, as transações revelam o quanto Epstein era quase totalmente dependente de Black para sua renda naquele momento. Os US$ 170 milhões (R$ 901 milhões) são “um valor anormal a ser pago por aconselhamento tributário, e nenhuma explicação satisfatória foi apresentada para justificar por que Black pagou somas tão extraordinárias sem um contrato ou acordo escrito”, escreveu o senador Ron Wyden em uma carta enviada à procuradora-geral Pam Bondi. Black acreditava que Epstein havia prestado serviços que “geraram mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões) e possivelmente US$ 2 bilhões (R$ 10,6 bilhões) ou mais em valor” para ele, segundo o relatório da Dechert.
Em 2017, Black também emprestou US$ 30,5 milhões (R$ 161,65 milhões) a uma empresa de Epstein chamada Plan D, dona de um jato Gulfstream que Epstein supostamente usava para transportar jovens e crianças para uma de suas ilhas, Little St. James. Segundo o relatório da Dechert, os empréstimos eram de curto prazo e estavam “ligados a uma transação de arte envolvendo Epstein”. Black exigiu o pagamento integral no início de 2018, mas Epstein quitou apenas US$ 10 milhões (R$ 53 milhões) antes de morrer, em 2019. Black afirma ter rompido relações com Epstein em outubro de 2018.
Benefícios fiscais
Além de explorar seus dois principais patrocinadores, Epstein contou com benefícios fiscais significativos nas Ilhas Virgens Americanas para construir sua riqueza. O programa da Comissão de Desenvolvimento Econômico do território, criado inicialmente na década de 1960, concede isenção de 90% do imposto corporativo e de 100% dos impostos sobre receitas brutas e tributos seletivos — desde que a empresa empregue ao menos 10 residentes locais em tempo integral e invista US$ 100 mil (R$ 530 mil) em um negócio local.
Epstein solicitou pela primeira vez os benefícios para a Financial Trust em dezembro de 1998. O pedido foi aprovado, garantindo as vantagens fiscais por 10 anos, até o fim de 2009 — prazo posteriormente estendido até 2014. Registros judiciais mostram que ele empregava cerca de 11 pessoas na empresa e investiu US$ 300 mil (R$ 1,59 milhão) para cumprir os requisitos do programa. Quando transferiu seus negócios para a Southern Trust em 2012, solicitou novamente os incentivos e recebeu aprovação em março de 2013, garantindo as mesmas isenções até o fim de 2023. Esses benefícios parecem ter terminado com sua morte, em 2019.
As economias fiscais de Epstein foram enormes. Graças às isenções, suas empresas pagaram apenas cerca de US$ 41 milhões (R$ 217,3 milhões) em impostos entre 1999 e 2018, segundo documentos judiciais. A Forbes estima que ele pagou uma alíquota média de aproximadamente 4% nesse período — em comparação com a taxa máxima de imposto corporativo de 38,5% cobrada pelas Ilhas Virgens Americanas durante a maior parte desses anos.
Desde então, o governo do território tentou recuperar parte desse valor. Em um acordo de 2022 com as Ilhas Virgens Americanas, o espólio concordou em devolver mais de US$ 80 milhões (R$ 424 milhões) em benefícios fiscais de desenvolvimento econômico que o governo afirma terem sido “obtidos de forma fraudulenta para alimentar sua organização criminosa”. Leon Black também firmou um acordo relacionado à sua relação com Epstein por US$ 62,5 milhões (R$ 331,25 milhões) em 2023.
Seis anos após sua morte, o espólio de Epstein ainda está repleto de recursos. Ele detinha US$ 131 milhões (R$ 694,3 milhões) em ativos em seu relatório trimestral mais recente, de 31 de março, incluindo US$ 49 milhões (R$ 259,7 milhões) em dinheiro e US$ 79 milhões (R$ 418,7 milhões) em “entidades” não especificadas. Nos últimos seis anos, o espólio vendeu todas as casas e ilhas de Epstein e reduziu grande parte de seu caixa ao distribuir mais de US$ 160 milhões (R$ 848 milhões) às vítimas, quitar um empréstimo de US$ 30 milhões (R$ 159 milhões) e concordar com um acordo de US$ 105 milhões (R$ 556,5 milhões) com as Ilhas Virgens Americanas. Ainda assim, recebeu um impulso no ano passado ao obter uma restituição fiscal de US$ 112 milhões (R$ 593,6 milhões) do governo.
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com