O preço do bitcoin sofreu mais uma queda acentuada nesta quarta-feira (4) e chegou no nível mais baixo desde os dias posteriores à vitória do presidente Donald Trump na eleição de 2024.
A criptomoeda atingiu ontem a máxima de US$ 76,9 mil (R$ 402,8 mil), mas encerrou a sessão em US$ 72,2 mil (R$ 378,4 mil). O movimento apagou os ganhos impulsionados pela vitória eleitoral de Trump e pelo otimismo em torno de uma regulação mais flexível e de uma supervisão mais favorável aos ativos digitais. Hoje, às 15h, continuava a despencar e era cotada a US$ 66,5 mil (R$ 348,5 mil), uma queda de quase 9% no dia.
Trata-se de uma liquidação expressiva do bitcoin, que chegou a ser negociado a até US$ 96.951 (R$ 508.023) nas últimas três semanas, mas passou a cair de forma gradual, incluindo uma desvalorização de 7% registrada no sábado.
Segundo Rob Hadick, sócio da gestora Dragonfly Capital, a venda não pode ser atribuída a um único fator. Em entrevista à CNBC, ele afirmou manter uma visão otimista para o desempenho do ativo no médio e no longo prazo.
Outros analistas, no entanto, demonstram menos confiança. O investidor Michael Burry, conhecido por prever a crise imobiliária de 2008, alertou em uma publicação no Substack que a queda do bitcoin pode desencadear uma “espiral da morte”, capaz de prejudicar empresas que fizeram apostas pesadas na moeda. “Não há um caso de uso orgânico que justifique uma desaceleração ou interrupção dessa queda”, escreveu, segundo a Bloomberg.
Especialistas afirmam que a indicação de Kevin Warsh por Trump para a presidência do Federal Reserve (Fed) pode ter contribuído para parte da recente liquidação. Ainda assim, analistas do Deutsche Bank, Marion Laboure e Camilla Siazon, disseram ao Investing.com que a “queda mais ampla é impulsionada principalmente por retiradas maciças de ETFs institucionais”.
Outras criptomoedas populares, como Ethereum, BNB e Solana, também registraram perdas, à medida que investidores reduziram exposição a ativos de maior risco em meio ao aumento da volatilidade.
“O mercado está preso a uma venda guiada pelo momentum”, afirmou Richard Usher, diretor de operações da OpenPayd, ao Investing.com. Segundo ele, quando o movimento se inverter novamente, “o mercado deve se ver subalocado em toda a classe de ativos”.
Bitcoin X Trump
O bitcoin disparou para níveis recordes nas semanas que se seguiram à vitória eleitoral de Trump, em novembro de 2024, impulsionado pela expectativa de um ambiente regulatório mais favorável às criptomoedas.
Depois de atingir o recorde histórico de US$ 126,2 mil (R$ 661,3 mil) em 6 de outubro de 2025, o fôlego se perdeu, à medida que investidores realizaram lucros e reduziram a exposição a ativos mais arriscados.
Analistas apontam que preocupações com juros e a retirada de recursos por grandes investidores do mercado cripto intensificaram a pressão. A reversão afetou todo o setor, anulando grande parte do impulso observado no pós-eleição.
Trump tem defendido a ideia de tornar os Estados Unidos um ambiente mais receptivo aos ativos digitais. Entre as medidas adotadas estão a assinatura de uma ordem executiva que criou um grupo na Casa Branca para elaborar um marco federal para criptomoedas e estudar a criação de um estoque nacional de ativos digitais, além de outra ordem que instituiu a Reserva Estratégica de Bitcoin. As iniciativas representaram uma ruptura com anos de ceticismo regulatório em relação ao setor.
Essa guinada pró-cripto, porém, se sobrepôs à expansão dos próprios negócios da família Trump no nicho, que incluem moedas com a marca Trump e uma empresa de criptomoedas que recentemente vendeu uma participação relevante a investidores ligados aos Emirados Árabes Unidos.
O movimento reacendeu questionamentos sobre conflitos de interesse. A Casa Branca nega que decisões de política pública sejam influenciadas pelos negócios da família, enquanto críticos afirmam que essa sobreposição confunde as fronteiras entre governança e ganho privado.
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com