Os relógios de luxo cruzaram uma linha. O que antes começava como um prazer pessoal ou uma forma de marcar conquistas profissionais tornou-se, para muitos colecionadores, um componente relevante do patrimônio familiar. Como observou recentemente Jimmy Kim, fundador da Council Watches, coleções formadas por compras que pareciam modestas — na faixa de dezenas de milhares de dólares — agora atingem rotineiramente valores na casa dos milhões.
Ainda assim, apesar de sua crescente relevância financeira, os relógios seguem entre os ativos menos planejados em muitos patrimônios. Permanecem em gavetas, cofres e caixas-fortes — frequentemente sem documentação, sem seguro e desconectados de um planejamento sucessório mais amplo. O resultado é previsível: ineficiência tributária, vendas apressadas, conflitos familiares e perda de valor.
Essa lacuna reflete um padrão mais amplo dentro contexto de arte e itens colecionáveis: as estratégias existem, mas, sem um arquiteto humano para desenhá-las e executá-las, raramente funcionam como o esperado.
O mercado de relógios amadureceu — o planejamento não
Kim descreve um mercado que se profissionalizou rapidamente. Marcas como Patek Philippe, Audemars Piguet, Richard Mille e F.P. Journe agora são negociadas em um mercado secundário global, com liquidez profunda e preços bem definidos. Alguns modelos se valorizaram em várias centenas por cento na última década.
O que não acompanhou esse ritmo foi a forma como as famílias planejam esses ativos. Os relógios são particularmente vulneráveis justamente por serem portáteis, divisíveis e familiares. Eles não são percebidos como “ativos patrimoniais” até que uma morte ou incapacidade force decisões — muitas vezes sob pressão.
A boa notícia é que os mesmos princípios que valem para obras de arte e outros colecionáveis se aplicam perfeitamente aos relógios, desde que haja alguém responsável por coordenar o processo.
Documentação e avaliação vêm primeiro
Assim como na arte, inventários precisos, registros de manutenção, caixas, certificados e documentação do custo de aquisição não são meros detalhes administrativos — são vetores de valor. A ausência de documentação frequentemente se traduz em preços com desconto e disputas fiduciárias. Com relógios, não é diferente.
O momento da venda é uma decisão estratégica
Kim enfatiza a importância do timing, especialmente em torno da morte. Isso se alinha diretamente à análise tributária. Uma venda após a morte pode se beneficiar do ajuste do custo de aquisição ao valor de mercado. Mas isso só ocorre se forem realizadas avaliações qualificadas que atendam às exigências da Receita Federal local e se os procedimentos de execução forem seguidos corretamente. Consulte profissionais especializados em tributos e planejamento sucessório para garantir conformidade.
O planejamento de liquidez precisa ser intencional, não reativo
Vendas forçadas motivadas por necessidades de liquidez do espólio podem gerar problemas. Relógios podem ter liquidez, mas vendas apressadas ainda destroem valor. O planejamento antecipado permite que as famílias decidam se os relógios serão ativos de legado, instrumentos de liquidez ou algo intermediário.
A governança importa mais do que o objeto
Entre colecionáveis, a falha mais comum não está na avaliação — está na autoridade para tomar decisões. Quem decide se é hora de vender? Quem escolhe os dealers? Quem resolve disputas entre herdeiros? A clareza sobre governança costuma ser mais importante do que o próprio ativo.
Estratégia e execução andam juntas
Embora existam diversas plataformas e profissionais capazes de apoiar diferentes aspectos da posse de relógios, resultados bem-sucedidos raramente acontecem por acaso. As famílias se beneficiam mais quando há um agente de confiança responsável por implementar uma estratégia deliberada e adaptada a cada situação.
Sem coordenação, tendem a recorrer a ações reativas — que nem sempre são as melhores, apenas as mais imediatas. Quando estratégia, execução e orientação profissional estão alinhadas, aumentam as chances de alcançar resultados ideais tanto no retorno financeiro quanto no emocional.
Essa é a principal lição do mercado de relógios — e dos colecionáveis de forma mais ampla.
Checklist de planejamento
Para colecionadores e consultores, as perguntas a seguir oferecem um ponto de partida prático:
- Inventário: Você possui um inventário atualizado e por escrito de todos os relógios, incluindo números de referência e localizações?
- Documentação: Caixas originais, certificados, registros de manutenção e recibos de compra estão devidamente organizados?
- Avaliação: Você conta com avaliações confiáveis e defensáveis, elaboradas por avaliadores qualificados para fins sucessórios e tributários — e não apenas estimativas de seguro?
- Estratégia Tributária: Você consultou um assessor tributário qualificado para avaliar se é melhor vender os relógios em vida ou após a morte, considerando fatores como o ajuste do custo de aquisição, as alíquotas de ganho de capital e as implicações do imposto sobre herança?
- Planejamento de Liquidez: Caso seja necessário pagar impostos sucessórios ou equalizar a distribuição entre herdeiros, os relógios fazem parte desse plano — ou são apenas uma reflexão tardia?
- Governança: Quem tem autoridade para decidir se e como os relógios serão vendidos, e sob quais critérios?
- Execução: Você identificou previamente consultores ou plataformas qualificadas, em vez de deixar a execução a cargo dos herdeiros?
Acima da administração casual
Relógios de luxo tornaram-se ativos relevantes. Tratá-los como tal não diminui seu significado pessoal — pelo contrário, os preserva.
Como observa Kim, os relógios continuarão marcando o tempo muito depois que seus proprietários originais se forem. A questão é saber se farão isso como fontes de valor e continuidade ou de confusão e conflito. A diferença raramente está na estratégia, mas em haver alguém responsável por desenhar — e implementar — o plano.
Os relógios são um dos exemplos mais claros de por que a divisão tradicional entre “ativos financeiros” e “bens pessoais” já não funciona para famílias de alta renda. O mercado amadureceu mais rápido do que a infraestrutura de planejamento ao seu redor e, até que as famílias adotem uma abordagem integrada, guiada por profissionais qualificados nas áreas jurídica, tributária e de avaliação, o valor continuará a se dissipar justamente nos momentos em que ele é mais importante.
AVISO: Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui aconselhamento jurídico, tributário ou financeiro. Os leitores devem consultar profissionais qualificados sobre suas circunstâncias específicas antes de tomar qualquer decisão relacionada a planejamento sucessório e tributário.
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com