Com Fermentação de Fungo, Foodtech Consegue Aporte de 350 Mil Euros e Mira Rodada de Série A

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Com mais pessoas buscando uma alimentação mais saudável e sustentável, o mercado de proteína vegetal vem crescendo no Brasil. Embora o setor seja encabeçado pela soja, novos itens estão ganhando espaço, como o micélio, uma rede de finos filamentos – hifas – que formam o corpo de um fungo. Embora soe como algo inusitado, o produto é bastante utilizado na Europa, nos Estados Unidos e em países da Ásia. No Brasil, a Typcal resolveu abraçar essa ideia e acredita que ela veio para ficar.

Fundada em 2021, a empresa é uma food biotech focada no mercado no B2B, comandada por Ibri e Eduardo Sydney, CTO da Typcal. Enquanto o primeiro trouxe sua experiência em empresas como Red Bull e Coca-Cola, o segundo é doutor em biotecnologia e especialista em fermentação. A união das forças de ambos já tem resultados, com dois produtos no mercado — o micélio fresco e o em pó. 

Recentemente, a empresa desenvolveu o gel de micélio, um item que poderá ser usado em alimentos como sorvetes e iogurtes. Segundo ela, além de oferecer textura e cremosidade, ele fornece ganhos nutricionais. O gel é extraído por meio de uma fermentação, na qual a empresa usa leveduras residuais da produção cervejeira. O processo, inclusive, foi patenteado em agosto.

Agora, com um aporte de 350 mil euros (R$ 2,19 milhões) da Biotope, uma aceleradora e investidora de biotecnologia belga, a Typcal sonha em ganhar mercados na Europa, nos EUA e na América Latina, exaltando os benefícios do micélio. Na última sexta-feira (19), a Forbes conversou com o CEO e cofundador da empresa, Paulo Ibri, que falou sobre a novidade e avaliou o mercado atual de food biotechs na região e no Velho Continente.

Da cerveja à nutrição

Criado para competir com outras proteínas vegetais, a Typcal considera que o principal diferencial do gel de micélio é a sua neutralidade. Segundo o CEO da empresa, isso permite que o ativo seja incorporado a diversos produtos, como pães, biscoitos, snacks e até ração para pets, além de superar o after taste da soja e da ervilha, que costumam dar certo amargor aos alimentos 

Para obter o produto, a empresa precisa de apenas 24 horas. Tempo bem menor ao de concorrentes europeias que varia entre 48 horas e 72 horas. A rapidez é atribuída ao uso de biorreatores. Ali, a Typcal cultiva os micélios e os transforma em ingrediente, com o auxílio das leveduras. 

O uso desses sistemas é uma outra vantagem, segundo o CEO. “Basicamente, precisamos crescer apenas na vertical, portanto, temos uma otimização da metragem em relação às demais proteínas. Nós conseguimos produzir sete mil vezes mais proteína por metro quadrado do que a soja, por exemplo”, aponta Ibri, que ainda destaca os biorreatores como facilitadores até para o crescimento da empresa. 

Destino do investimento

A busca por capital na Europa e, mais especificamente na Bélgica, não foi por acaso. O país é forte em biotecnologia, com incentivos governamentais, além de ter um mercado mais maduro para tecnologias de fermentação. O processo não foi bem uma novidade, já que antes de ser selecionada para o aporte financeiro, a Typcal já tinha participado de um programa de aceleração da Biotope.

“Eles já trabalham com fermentação há mais tempo. Alguns equipamentos que a gente precisa utilizar para alguns desenvolvimentos ainda não se tem na América Latina”, afirma o CEO. Com uma subsidiária a caminho na cidade de Ghent (BEL), a empresa quer direcionar todo o aporte em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e não parar por aí. 

Para 2026, a Typcal almeja estruturar uma rodada Série A, com o objetivo de ampliar sua escala industrial e sua equipe. A intenção é atender novos mercados na América Latina, Europa e Estados Unidos. No Brasil, ela ainda espera a autorização da Anvisa para comercialização, o que deve ocorrer em 2026.

Em novembro, a empresa inaugurará sua fábrica na cidade de Curitiba, com capacidade de produção de até 5 toneladas por mês e faturamento de R$ 5 milhões. “Com ela, ganharemos tração e a partir disso, vamos mirar a Serie A”, diz Ibri.

O mistério do micélio

O fungo ainda é novidade e isso é visto como o principal desafio do mercado de micélio. “As pessoas já conhecem a soja, a ervilha e o whey, que só agora está ficando mais popular. Queremos que a indústria e o consumidor saibam dos benefícios do micélio: a sustentabilidade, saudabilidade e sua neutralidade”, diz o CEO.

Outra questão é seu estágio na América Latina. Segundo Ibri, a região ainda não tem conhecimento técnico suficiente, sofrendo com indisponibilidade de equipamentos e tecnologias. Isso, inclusive, motiva a Typcal a captar recursos no exterior, especialmente na Europa. Desde a sua primeira aceleração no Velho Continente, a empresa mantém constante diálogo com players do setor.

Em termos comparativos, Ibri aponta que não é toda startup de food biotech que encontra incentivos para se desenvolver na região latina. “Há uma cultura mais voltada para fintechs e SaaS (software as a service). Na Europa é um pouco diferente, já há um olhar mais atento à pauta ambiental. Além disso, eles não têm a mesma disponibilidade de proteína que temos aqui na região”, explica o CEO. 

Um outro ponto também desafiador é uma consequência deste cenário. “Não há muitos benchmarks, o que nos traz um pioneirismo que tem prós e contras. É claro que é ótimo abrir esse mercado na América Latina, mas, por outro lado, não temos concorrentes para nos comparar, não há um duelo saudável”, aponta Ibri.

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