Como Este Imigrante Indiano Foi do Visto de Trabalho a Império Bilionário

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Jyoti Bansal vendeu sua primeira empresa para a Cisco em 2017 e, em seguida, caiu na estrada. Ele estava em seu segundo safári na África, observando a savana, quando se deu conta de que, nos meses anteriores, já havia feito trilhas em Machu Picchu, se encantado com os fiordes noruegueses e atravessado o Himalaia a pé. Ele tinha apenas 39 anos e não havia mais nada em sua lista de desejos.

“Eu tentei me aposentar”, diz Bansal, hoje com 47 anos, de seu escritório em casa, em São Francisco, onde vive com a família. “As pessoas dizem: ‘Quando eu me aposentar, vou fazer o que gosto’. Eu me perguntei: ‘Eu gosto de jogar golfe o tempo todo ou de ficar o tempo todo na praia?’ Na verdade, não. Então percebi: por que não voltar a fazer o que realmente gosto, que é construir uma empresa?”

Foi assim que ele lançou a Harness, uma plataforma de entrega de software baseada em inteligência artificial. Na quinta-feira (11), a empresa anunciou a captação de uma rodada Série E de US$ 240 milhões (R$ 1,30 bilhão), liderada por Goldman Sachs Alternatives, Institutional Venture Partners e Menlo Ventures, com uma avaliação de US$ 5,5 bilhões (R$ 29,76 bilhões) — valor suficiente para transformar Bansal em um novo bilionário.

A Forbes estima que seu patrimônio líquido seja de US$ 2,3 bilhões (R$ 12,44 bilhões), graças a uma participação estimada de 30% na Harness. Além do volume de recursos obtidos com a venda de sua primeira empresa, a AppDynamics — especializada em diagnóstico e resolução de falhas em softwares — para a Cisco em 2017, poucos dias antes de a companhia abrir capital.

Transformando código em eficiência

O primeiro empreendimento de Bansal inspirou o segundo. “O problema que mais me fascinava na AppDynamics era que, quando um software é lançado e ocorre uma falha ou uma interrupção, nossa tecnologia ajuda a corrigir isso”, afirma.

“As pessoas nem sempre percebem que escrever código representa apenas cerca de 30% do trabalho. Os outros 70% consistem em garantir que esse código seja devidamente testado”, comenta ele.

A Harness utiliza agentes de IA para automatizar o trabalho manual de garantir que o código seja seguro e esteja em conformidade com diferentes regulações. A empresa faz isso ao dividir as várias tarefas envolvidas no envio de código — como testes, otimização e segurança — e automatizar cada uma dessas etapas com inteligência artificial.

Bansal compara a tecnologia a um cinto de segurança físico: a empresa vende seu software de entrega para companhias que vão da United Airlines ao Citi, reduzindo o esforço dos engenheiros nos processos de teste e implantação.

“Se você levar um trilhão de dólares em eficiência para o mundo, as pessoas pagarão pelo menos 10% do que você economizar para elas”, diz Bansal. Ele ainda não chegou a um trilhão — a empresa gera algo mais próximo de um quarto de bilhão até agora —, mas a IA generativa tornou o serviço ainda mais crítico.

Segundo ele: “Se a IA está ajudando a escrever código, o volume cresce algo como dez vezes, e agora as pessoas têm dificuldade para testar tudo isso.”

Embora a maior parte da receita venha do negócio de entrega contínua, a Harness opera outros 16 produtos relacionados, incluindo a empresa de cibersegurança Traceable — uma companhia separada, fundada por Bansal e posteriormente incorporada à Harness, que impede ataques de hackers ao código das empresas por meio de sistemas de interface.

“Isso é o que ele chama de uma startup dentro de outra startup”, afirma Steve Harrick, sócio da Institutional Venture Partners, com sede em Menlo Park, Califórnia, que investiu nos três negócios de Bansal, além de empresas como Discord, Klarna e Slack.

“Quando ele veio apresentar a Harness em 2017, não falou apenas sobre entrega contínua de software; ele apresentou um roteiro dos próximos cinco a sete módulos que seriam desenvolvidos”, diz Harrick.

“É uma forma extremamente ambiciosa de construir uma empresa”, continua Harrick. “Mas, na nossa primeira reunião, Bansal me mostrou uma projeção de dez anos para alcançar US$ 1 bilhão (R$ 5,41 bilhões) em receita. E disse: ‘É isso que vamos fazer’.… Fico muito satisfeito em dizer que ele está no caminho certo.”

Caminho até o Vale do Silício

Bansal cresceu ajudando o pai no negócio de máquinas agrícolas em uma pequena cidade do estado de Rajasthan, na Índia, antes de ser aprovado no Instituto Indiano de Tecnologia, em Delhi, para cursar engenharia da computação.

Foi lá que, segundo ele, se apaixonou pelo empreendedorismo, ao relembrar uma visita de Bill Gates ao campus e ao ler sobre o “aluno lendário” Sabeer Bhatia, cofundador do Hotmail. “Foi isso que me trouxe ao Vale do Silício”, diz Bansal.

Aos 21 anos, embarcou para a Califórnia com algumas centenas de dólares no bolso e o sonho de obter um green card e abrir a própria empresa. Antes disso, porém, precisava trabalhar. Ele passou sete anos como engenheiro em três pequenas empresas de tecnologia corporativa, que patrocinaram seu visto H-1B (visto de trabalho).

“O desafio, infelizmente, é que, se você está com um visto H-1B, não pode abrir uma empresa e criar mais empregos, o que considero muito irônico”, afirma Bansal, que se tornou cidadão americano em 2016. “Tive de esperar algum tempo até conseguir o green card.”

“Eu realmente acredito que o superpoder dos Estados Unidos é atrair os melhores talentos do mundo inteiro”, acrescenta. “Qualquer coisa que elimine essa vantagem é pensamento de curto prazo e não é bom para o país.”

Com o green card em mãos, Bansal fundou a AppDynamics em 2008 para oferecer uma plataforma sofisticada de resolução de problemas para sistemas complexos como os da Netflix e da Priceline — ajudando engenheiros dessas empresas a reduzir quedas e falhas em seus sites e serviços.

Após diversas recusas iniciais, ele conseguiu os primeiros aportes de venture capital, levantando uma rodada Série A de US$ 5,5 milhões (R$ 29,76 milhões) ainda naquele ano.

“A Netflix estava apenas começando seu negócio de streaming e levando tudo para o ambiente online”, recorda Bansal. “Imagine um consumidor que fica frustrado porque o vídeo está travando. Alguns dos nossos primeiros clientes foram empresas como a Netflix, nas quais ajudamos os engenheiros a garantir que não ocorram falhas ou, se ocorrerem, que sejam corrigidas muito rapidamente.”

Venda bilionária e recomeço

Bansal expandiu a AppDynamics por mais de uma década, ao longo de seis rodadas de investimento, e a empresa já faturava mais de US$ 200 milhões quando ele decidiu levá-la à bolsa. “Estávamos prestes a listar a empresa na Nasdaq e tocar o sino em uma quinta-feira de janeiro de 2017”, conta Bansal, quando a gigante da tecnologia Cisco apareceu.

Ele negociou o cancelamento do IPO e vendeu a AppDynamics por US$ 3,7 bilhões (R$ 20,02 bilhões). A Forbes estima que Bansal tenha saído do negócio com centenas de milhões de dólares. Segundo Harrick, da IVP, a AppDynamics hoje gera mais de US$ 1 bilhão em receita para a Cisco.

Bansal deixou a AppDynamics pouco depois da aquisição e, após uma breve tentativa de aposentadoria antecipada, voltou rapidamente a enfrentar uma lista de problemas que desejava resolver. “Acredito firmemente que, para construir uma empresa, é preciso dedicar muito tempo a ela”, afirma. “Pelo menos dez anos.”

Após viajar por seis meses depois da venda da AppDynamics, ele fundou a Harness. O objetivo da empresa era permitir que engenheiros de computação passassem menos tempo no “trabalho desnecessário que ninguém queria fazer” envolvido nos testes e na entrega de código.

“O mundo inteiro funciona com código — seja no sistema bancário, em transações, companhias aéreas ou em tudo mais — e esse código precisa de um cinto de segurança”, diz. “Isso libera os desenvolvedores para fazer coisas mais interessantes e garante que tudo seja testado e implantado corretamente.”

Desde sua fundação, a Harness utiliza IA para automatizar tarefas. “Nossa primeira tecnologia de IA servia para identificar se uma mudança no código poderia quebrar alguma coisa ou não”, explica Bansal.

“Nos últimos anos, a IA agentiva se tornou uma parte extremamente poderosa da plataforma da Harness… tarefas complexas que poderiam levar semanas agora podem ser realizadas, em grande parte, por assistentes de IA.”

Ao todo, a Harness, sediada em São Francisco, já levantou US$ 570 milhões (R$ 3,08 bilhões) para expandir sua presença no mercado e acelerar a inovação.

A empresa, que conta com mais de 1.200 funcionários em um modelo de trabalho híbrido, cresce 50% ao ano. Bansal espera que, um dia, isso permita realizar mais um item de sua lista de desejos: “Queremos abrir capital”, afirma. “Da última vez, não conseguimos.”

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