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O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, transmitiu uma mensagem dura na noite de domingo. O Departamento de Justiça notificou o banco central americano com intimações de um grande júri, sob ameaça de indiciamento criminal por conta do depoimento de Powell ao Comitê Bancário do Senado no ano passado. Powell afirmou que o real motivo da investigação não era aquele depoimento, nem a longa reforma na sede do Fed em Washington. Em vídeo, ele declarou que o objetivo era exercer pressão. Para Powell, a intenção é minar a capacidade do Fed de ajustar os juros com base em dados econômicos, e não em exigências presidenciais.
Analistas de mercado se prepararam para uma reação severa, alertando que investidores globais poderiam perder a confiança nas instituições americanas. Surgiram discussões sobre os ativos dos EUA (o chamado “sell America“), sob a premissa de que, se a Casa Branca puder interferir no Fed, o mercado exigirá um prêmio de risco maior. Krishna Guha, da Evercore ISI, resumiu o temor em uma nota: “Isso é claramente um cenário de risk-off (fuga de ativos de risco)”.
Mas não foi o que se viu. Os mercados mal reagiram.
O S&P 500, o Dow Jones e o Nasdaq fecharam o dia em alta. Embora a ex-presidente do Fed e secretária do Tesouro, Janet Yellen, tenha dito que os investidores deveriam “ficar atentos”, a preocupação não gerou uma onda de vendas de ativos. Trump já atacou Powell antes e pouco aconteceu. Recentemente, a Justiça bloqueou uma tentativa de remover a diretora do Fed, Lisa Cook e além disso, os senadores republicanos Lisa Murkowski e Thom Tillis já avisaram que barrariam qualquer novo indicado ao Fed até que a investigação fosse resolvida. Como os republicanos têm 53 cadeiras e a aprovação exige 51 votos, as instituições ainda mostram resistência.
Histórico
O histórico mostra que pressões sobre o Fed não prejudicam as ações automaticamente.
A prova vem do Índice de Pressão Presidente-Fed (FPPI), criado por Yosef Bonaparte, professor de finanças na Universidade do Colorado. Bonaparte analisou quase 69 mil reportagens desde 1980 para medir o nível de pressão pública exercida pelos presidentes sobre o Fed e o efeito disso nos mercados.
As oscilações de preço aumentam quando a pressão sobe, o que, para Bonaparte, reflete incerteza, e não pânico. Os preços variam enquanto o mercado espera para ver como o conflito terminará. “A pressão traz volatilidade, mas não necessariamente retornos menores”, diz o professor.
Quanto aos retornos, a média mostra que as ações sobem levemente quando a pressão sobre o banco central aumenta. Esses ganhos, contudo, concentram-se em empresas menores (small caps); as gigantes de mercado quase não reagem.
A lógica é simples: a pressão política quase sempre busca forçar a alta dos mercados, sinalizando uma política monetária mais estimulante. Quando um presidente tenta influenciar o Fed, o mercado passa a projetar juros menores ou o adiamento de altas. Juros baixos favorecem o preço das ações, especialmente de empresas menores e mais sensíveis ao crédito. O estudo de Bonaparte mostra que picos de pressão são seguidos por expectativas de juros mais baixos nos meses seguintes.
O índice reflete com precisão a história recente, subindo em momentos de tensão como a recessão de 2000, a crise de 2008 e o salto inflacionário pós-pandemia. Mas os maiores picos ocorreram na era Trump. O FPPI disparou no primeiro mandato e subiu ainda mais no segundo. Em uma média mensal, Trump aplicou quase o dobro de pressão no Fed do que Biden e sete vezes mais que Reagan, com dados que vão até julho de 2025.
Interferência política no Fed não é nova
Lyndon Johnson pressionou fortemente pela agenda de Kennedy em 1964, exigindo juros baixos para financiar o crescimento e a Guerra do Vietnã. Em 1965, Johnson chegou a empurrar fisicamente o então presidente do Fed, William McChesney Martin, em seu rancho no Texas, gritando: “Rapazes estão morrendo no Vietnã e Bill Martin não se importa”. Richard Nixon fez o mesmo em 1971, exigindo que Arthur Burns “turbinasse” a economia antes da eleição de 1972, apesar da inflação de 4,7%. Na época, as ações subiram por alguns meses, mas desabaram logo depois em uma recessão severa e um mercado de baixa prolongado.
Apesar dos dados, o estudo não defende um Fed submisso. A pressão política gera incerteza econômica e pode dificultar a venda de títulos da dívida pública. Não por acaso, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, estaria insatisfeito com a investigação. O trabalho de Bonaparte também mostra que a pressão eleva as expectativas de inflação e fere a credibilidade a longo prazo. O exemplo extremo é a Turquia: sob o controle de Erdogan, aliado de Trump, a inflação atingiu 85% em outubro de 2022 e segue acima de 30% hoje.
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