Fed Segue Roteiro Esperado e Mantém Juros Inalterados, Mas Expõe ‘Racha’ Interno

O cenário majoritário do mercado se confirmou nesta quarta-feira (28). Há pouco, o Federal Reserve confirmou a manutenção dos juros na faixa entre 3,5% e 3,75% ao ano. O movimento ocorre em um momento de forte pressão do governo de Donald Trump para que o BC corte os juros.

No comunicado, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) justificou a decisão afirmando que a economia segue crescendo em ritmo sólido, com a baixa recuperação do mercado de trabalho e estabilização da taxa de desemprego. Apesar disso, o colegiado apontou que o nível da inflação permanece elevado — na última divulgação, o núcleo do PCE, considerado a métrica mais importante para o Fed por excluir a movimentação de itens voláteis, mostrou acúmulo de 2,7% em 12 meses, acima da meta de 2%.

“Ao considerar a extensão e o momento de ajustes adicionais à meta para a taxa de juros, o Comitê avaliará cuidadosamente os dados recebidos, a evolução das perspectivas e o equilíbrio de riscos. O Comitê está firmemente comprometido em apoiar o máximo emprego e em retornar a inflação à sua meta de 2%”, repetiu o BC americano em seu comunicado.

Assim como aconteceu na reunião passada, a decisão não foi unânime. Dessa vez, dois membros votantes da autarquia votaram por reduzir os Fed Funds em 0,25 ponto percentual. A pausa acontece após três cortes consecutivos.

Para André Valério, economista sênior do Inter, a distribuição dos votos chama a atenção. “Além de Steve Miran, que era membro do governo Trump e defende um ciclo de cortes mais intenso, chama a atenção o voto de Chris Waller, que é um dos cotados para assumir a vaga de Powell a partir de maio. Especulava-se que ele pudesse divergir nessa reunião justamente como uma sinalização ao governo Trump”, aponta Valério.

Na visão do economista, o comunicado atual omite os riscos de queda para o emprego, enquanto reafirma o ritmo elevado da inflação e do crescimento econômico, mantendo a mesma prática vista nos últimos documentos. Apesar disso, o Inter espera que o Fed volte a cortar os Fed Funds na reunião de março. “Para o restante do ano, a dinâmica da política monetária americana será altamente dependente em que será escolhido para substituir Powell”, conclui. 

Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, as projeções do dot plot mostram um Fed mais hawkish (duro) do que o consenso de mercado esperava, com mediana apontando para um Fed Fund de 3,25% ao fim de 2026, implicando apenas um ou dois cortes de 25 pontos-base ao longo do ano, contra os cerca de 0,75 ponto percentual já precificados pelo mercado. 

Em sua coletiva de imprensa após a reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto, Powell disse que o núcleo do índice PCE provavelmente ficou em 3% no último mês do ano. Para ele, “essas leituras elevadas refletem em grande parte a inflação no setor de bens, que foi impulsionada pelos efeitos das tarifas. Em contrapartida, a desinflação parece continuar no setor de serviços”.

Logo após a reunião, a ferramenta FedWatch do CME Group apontava uma chance de 86% de manutenção na reunião de março.

Guerra civil

Desde o início do governo Trump, o presidente dos Estados Unidos não economiza críticas ao plano de ação do Federal Reserve. Para Trump, a taxa de juros deveria estar em um nível mais baixo, como forma de estimular a economia e o consumo de crédito.

Se durante boa parte do tempo as críticas ficaram apenas no campo retórico, o conflito entre Powell e o presidente americano vem escalando nos últimos meses.

Em outubro, a Suprema Corte americana se recusou a aceitar a demissão feita pelo governo Trump da diretora do Fed Lisa Cook. No início de janeiro, o Departamento de Justiça de Trump abriu uma investigação criminal contra Jerome Powell, utilizando os altos custos da reforma do prédio do Fed como gatilho.

Na coletiva de imprensa, Powell evitou entrar em temas políticos ou direcionar críticas ao governo de Donald Trump. Ele descreveu ações do governo como “tentativa de intimidação”, defendendo decisões baseadas em dados econômicos e não preferências presidenciais.

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