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Roubo, Fraude e Escândalo: Por Dentro do Colapso da Lugano Diamonds

O diamante era uma pedra elegante azul em formato de pera, com 6,43 quilates, internamente impecável, montada em um anel e avaliada em quase US$ 11 milhões (R$ 58,3 milhões). Em um processo judicial aberto em julho, a Scarselli Diamonds, sediada em Nova York, afirma que enviou a gema a um salão da Lugano Diamonds em Miami em janeiro de 2025 — mas apenas depois de realizar meses de diligência prévia sobre a Lugano, concluir outras 14 transações de consignação no valor total de US$ 44 milhões (R$ 233,2 milhões) com a empresa e receber a confirmação de que a Lloyd’s of London cobriria o valor da peça caso algo desse errado. 

Quando a Scarselli enviou o diamante ao CEO da Lugano, Mordechai “Moti” Ferder, em 28 de janeiro de 2025, o acordo, segundo a acusação, previa que a joia seria exibida a um potencial comprador em Miami e devolvida mediante solicitação.

Por isso, causou surpresa no fim de fevereiro quando a Scarselli pediu à Lugano a devolução daquele diamante e de outras peças consignadas a tempo da feira de joias de Hong Kong, em março . Tudo foi devolvido, exceto o diamante azul. “Ainda estamos trabalhando neste”, teria respondido Ferder pelo WhatsApp.

Em abril, dias depois de a Forbes destacar Ferder e o impressionante sucesso da Lugano — com base em resultados auditados apresentados em documentos à SEC —, a controladora da empresa, a gestora de investimentos Compass Diversified, aparentemente recebeu uma denúncia para examinar mais de perto como seu CEO estrela estava financiando o estoque. 

O elegante executivo do setor de diamantes visitava Israel, seu país natal, naquele momento — e nunca mais voltou. A Compass, junto com outros executivos da Lugano, iniciou rapidamente uma investigação de contabilidade forense que identificou irregularidades em vendas, custo dos produtos vendidos, estoque e contas a receber.

A apuração concluiu que Ferder havia “criado transações de vendas falsas para inflar a receita reportada”, vendido estoque que não existia ou que não pertencia à Lugano e firmado diversos acordos de financiamento não divulgados com terceiros, mantidos fora do balanço da empresa.

Problemas jurídicos

Em maio, a Lugano — então sob o comando do ex-executivo da Bulgari Josh Gaynor, que havia ingressado na companhia no ano anterior — admitiu não saber o paradeiro de vários diamantes, incluindo o da Scarselli. Dois meses depois, a Scarselli processou a Lugano, a Compass e a Lloyd’s no Tribunal Superior do Condado de Orange, pedindo US$ 13,5 milhões (R$ 71,6 milhões) e descrevendo o diamante azul desaparecido como “uma gema que talvez não encontre equivalente por décadas”. 

Por e-mail, o proprietário da joalheria, Davide Scarselli, recusou-se a comentar. Ele é um dos cerca de duas dúzias de investidores em diamantes que afirmam que a Lugano lhes deve US$ 1,5 milhão (R$ 7,95 milhões) ou mais.

Em sua ação contra Ferder, a Lugano — que fechou showrooms em Londres, Connecticut e Washington, D.C., mas ainda opera outros seis, além de uma boutique itinerante — acusou o ex-CEO de roubar o diamante azul. A empresa entrou com pedido de recuperação judicial em 11 de novembro. Em meados de janeiro, foi vendida a uma divisão da especialista em liquidação de ativos problemáticos de varejo Gordon Brothers.

Buraco financeiro

Embora haja muitos prejudicados pela suposta fraude na Lugano, o maior deles é a Compass Diversified, uma gestora listada em bolsa (conhecida pelo ticker CODI, na NYSE), que detém participações de controle em empresas de médio porte, como a fabricante de combustível Sterno Products.

Em setembro de 2021, a Compass pagou a Ferder US$ 198 milhões (R$ 1,05 bilhão) em dinheiro por 60% da joalheria sediada em Newport Beach, Califórnia.

 “A Lugano tem um modelo de negócios disruptivo que gera valor significativo para seus clientes e, acreditamos, fortalece nossa transformação para acelerar o potencial de crescimento coletivo da CODI”, afirmou o CEO da Compass, Elias Sabo, pouco após a aquisição. Naquele momento, a Compass vivia seu auge, com valor de mercado que atingiu US$ 2 bilhões (R$ 10,6 bilhões) em dezembro de 2021.

Por alguns anos, a Lugano pareceu ser uma joia reluzente no portfólio da Compass. A empresa veiculou anúncios com Georgina Bloomberg, filha de Mike Bloomberg, além da bilionária Sheila Johnson. Também aparentava ter caixa suficiente para prometer US$ 30 milhões (R$ 159 milhões) a dezenas de organizações sem fins lucrativos, incluindo US$ 1 milhão (R$ 5,3 milhões) para uma escola de música no Condado de Orange e US$ 2,5 milhões (R$ 13,25 milhões) para tornar gratuita, por dez anos, a entrada do Orange County Art Museum. A receita saltou 50%, para US$ 471 milhões (R$ 2,5 bilhões) em 2024, enquanto o Ebitda disparou para US$ 195 milhões (R$ 1,03 bilhão), ante US$ 30 milhões (R$ 159 milhões) em 2021.

Resultados tão expressivos da Lugano facilitaram para a Compass, sediada em Greenwich, Connecticut, financiar o restante de seus negócios diversos — atualmente, ela possui participações em oito empresas, incluindo a Sterno; a PrimaLoft, fabricante de isolamento usado em jaquetas de marcas como Patagonia, Helly Hansen e Lululemon; e a empresa de produtos de higiene feminina Honey Pot.

“O que se ganha com um conglomerado assim?”, perguntou a Forbes a Sabo há um ano. O executivo, que passou por CIBC Oppenheimer e pelo fundo Colony Capital, do bilionário Tom Barrack, entrou na Compass em 1998, aos 27 anos. Duas décadas depois, ele se tornou CEO da empresa, então avaliada em cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões).

Sua resposta: “De forma bem simples, se eu financiar dez empresas separadamente, cada uma com US$ 50 milhões (R$ 265 milhões) de Ebitda, isso vai ser muito mais caro do que financiá-las juntas como um único negócio de US$ 500 milhões (R$ 2,65 bilhões)”.

O objetivo, explicou, era criar uma espécie de mini-Berkshire Hathaway. Diferentemente da Berkshire, porém, a Compass cobra uma taxa de gestão de cada subsidiária. De acordo com uma análise de documentos da SEC, a taxa equivale a cerca de 2% dos “ativos líquidos ajustados” de cada empresa do portfólio, além de uma taxa de incentivo de 0,25% sobre os ativos caso o retorno sobre o patrimônio supere 12% por três anos consecutivos. 

A gestão também fica com 20% dos lucros quando vende uma empresa. Há alguma margem de negociação: a PrimaLoft, por exemplo, conseguiu reduzir a taxa para 1% em 2023. No caso da Lugano, os ativos eram em grande parte equivalentes ao estoque, que ao final de 2024 havia alcançado US$ 700 milhões (R$ 3,71 bilhões) em valor (antes dos ajustes), sustentado por US$ 660 milhões (R$ 3,5 bilhões) em empréstimos da Compass. Assim, Sabo e sua equipe teriam recebido US$ 14 milhões (R$ 74,2 milhões) naquele ano para supervisionar o estoque de joias que desaparecia.

No fim de 2024, Sabo havia explicado à Forbes como esses incentivos levavam sua equipe a acompanhar de perto as empresas do portfólio, incluindo a Lugano. “Nós somos donos ativos das nossas empresas. Ajudamos a definir a estratégia. Criamos uma cultura de responsabilidade”, disse. “Somos muito mais intensivos na forma como interagimos e trabalhamos com elas.” Questionado sobre o fato de o modelo incentivar a compra de empresas com grande volume de estoque e necessidade de capital de giro, Sabo respondeu: “Essa é uma forma de olhar. Posso alocar capital em um negócio intensivo em capital de giro como a Lugano e observar o retorno sobre o capital investido, que é fora da curva e diferente de tudo que já vi”.

Desilusão 

Como se viu depois, era bom demais para ser verdade. Desde a queda da Lugano, a Compass — que praticamente apagou a joalheria de seu site — teve de refazer demonstrações financeiras. Em dezembro, reapresentou três anos de resultados consolidados, mostrando que a receita da Lugano em 2024 foi 85% menor do que o divulgado inicialmente. 

A Compass também revisou sua receita consolidada de 2024 de US$ 2,2 bilhões (R$ 11,66 bilhões) para US$ 1,8 bilhão (R$ 9,54 bilhões); o lucro líquido passou de um ganho de US$ 12,8 milhões (R$ 67,8 milhões) para um prejuízo de US$ 209 milhões (R$ 1,11 bilhão); e os ativos do balanço foram reduzidos em US$ 750 milhões (R$ 3,98 bilhões), para US$ 3,3 bilhões (R$ 17,49 bilhões). As ações da Compass despencaram 70% no último ano; a empresa agora vale apenas US$ 500 milhões (R$ 2,65 bilhões).

Sem os supostos lucros da Lugano, a Compass também entrou em inadimplência em US$ 1,8 bilhão (R$ 9,54 bilhões) em dívidas, cerca de um terço das quais havia emprestado à Lugano ao longo de vários anos. A empresa precisou negociar acordos de tolerância com um consórcio de credores liderado por Bank of America e JPMorgan Chase. 

Entre as novas exigências: reduzir pela metade as taxas cobradas das subsidiárias e limitar esses valores a US$ 10,5 milhões (R$ 55,7 milhões) por trimestre. A gestão da Compass também se comprometeu a devolver aos acionistas US$ 43 milhões (R$ 227,9 milhões) em taxas excessivas anteriormente recebidas da Lugano e a absorver 20% das perdas da joalheria, abrindo mão de cerca de US$ 100 milhões (R$ 530 milhões) em futuras participações nos lucros.

Quanto aos proprietários de joias e investidores prejudicados, eles ainda esperam recuperar seus diamantes ou ao menos parte do dinheiro e buscam uma ordem judicial para congelar os recursos da venda, em junho passado, da casa de Ferder em Corona del Mar — por US$ 7 milhões (R$ 37,1 milhões), valor que os autores da ação alegam estar abaixo do mercado — para uma holding criada por um corretor imobiliário do Condado de Orange e amigo de Ferder. O imóvel agora está à venda por US$ 9,2 milhões (R$ 48,8 milhões).

O golpe

O núcleo do suposto golpe, segundo cópias de contratos anexadas aos autos, parecia envolver a venda de participações em diamantes específicos a clientes ricos, com a promessa de divisões generosas de lucros quando as pedras fossem transformadas em joias e vendidas a outro comprador abastado. Enquanto aguardavam a venda, Ferder prometia pagar juros sobre o capital investido.

Um desses autores, Kristoffer Winters, afirma ter a receber US$ 9 milhões (R$ 47,7 milhões) referentes a investimentos em diamantes feitos em 2023 e 2024. Os contratos mostram que ele pagou US$ 3 milhões (R$ 15,9 milhões) a Ferder para comprar 50% de três diamantes. Enquanto buscava um comprador, Ferder teria prometido pagar a Winters juros mensais de 10% sobre o principal. Após um pagamento de juros, Winters diz não ter recebido mais nada e agora acredita que Ferder talvez nem fosse dono dos diamantes.

De acordo com documentos enviados pela Compass à SEC, os livros da Lugano registravam as entradas de caixa dessas vendas como receitas operacionais comuns. Em nenhum momento constava a obrigação de devolver o principal ou dividir lucros. Contadores contratados pela Compass concluíram posteriormente que esses acordos deveriam ser reclassificados como US$ 184 milhões (R$ 975,2 milhões) em obrigações a pagar.

Como a Compass e Sabo deixaram escapar tantos sinais? Eles não deixaram, insiste o advogado de Ferder, Jeff Reeves, que afirma que seu cliente está sendo usado como bode expiatório e que as acusações são “uma tentativa triste e óbvia de desviar a culpa”.

Reeves diz que os acordos de financiamento eram prática comum no setor de joias de luxo e que a Compass, junto com seu comitê de auditoria, auditores internos e externos, precisava saber o que estava acontecendo. “A Compass não deixou passar nada. Ela sabia do que estava ocorrendo”, afirma. “Não houve fraude aqui.”

Ele também nega as alegações da Lugano de que Ferder “roubou milhões adicionais ao autorizar transferências fraudulentas para o seu próprio Haim Family Trust”.

“Nenhum dinheiro foi desviado para o sr. Ferder, sua família ou entidades afiliadas a ele”, diz Reeves. “Cada dólar pago por terceiros nesses acordos foi diretamente para a Lugano. Alegações em sentido contrário não são apenas erradas — são passíveis de ação judicial.”

Além disso, ele afirma que a Compass agora estaria promovendo um encobrimento. “A queda de receita que a Compass está alegando é fictícia” e faz parte de uma narrativa falsa para ocultar sua própria responsabilidade por não supervisionar adequadamente os relatórios financeiros da Lugano. A Compass conhecia os acordos e “os manteve em vigor para aproveitar os benefícios operacionais”, afirma Reeves.

Sabo, de 54 anos, recusou-se, por meio de um porta-voz, a comentar à Forbes o colapso da Lugano ou se demitiu alguém por causa disso. 

Por ora, a Compass alega que Ferder “se apoiou em uma rede complexa de contrapartes não divulgadas” e “adotou ações excepcionais para ignorar ou contornar os controles” estabelecidos pela empresa “para evitar a detecção”. A Lugano também afirma que o filho dele, Tom Ferder, ex-executivo de desenvolvimento de negócios da joalheria, participou do esquema, usando suas conexões para fechar acordos de diamantes fora dos livros. Em documentos à SEC, a empresa alegou ainda que Ferder manipulou funcionários da Lugano “que demonstraram falta de zelo”.

O advogado de Ferder diz que essa suposta “rede complexa” incluía praticamente todos na Lugano, inclusive o CEO interino Josh Gaynor e confirma que seu cliente, que não enfrenta acusações criminais, pretende apresentar contra-ações. 

“Nada do que a Compass está alegando agora, se fosse verdade, poderia ter ocorrido sem o conhecimento e o envolvimento de inúmeras pessoas”, afirma Reeves. Em resposta à Forbes, a Compass declarou que “a CODI rejeita a sugestão de que tenha participado, endossado ou se beneficiado da conduta do sr. Ferder”.

Dor de cabeça

Desvendar esse imbróglio tem sido uma grande dor de cabeça para a Compass e consumido muito de seu tempo. Em comunicado à Forbes, a empresa afirma não ter motivos para acreditar que a fraude tenha se estendido além da Lugano e que Sabo e sua equipe “estão promovendo mudanças em pessoas, processos e estrutura para fortalecer ainda mais a supervisão e os controles”. De forma prudente, decidiram terceirizar a função de auditoria interna e criaram um novo cargo de “supervisão de risco e compliance”, subordinado ao comitê de auditoria.

O que restou da Lugano foi adquirido pela Enhanced Retail Funding, divisão da especialista em liquidação Gordon Brothers, provavelmente por menos de US$ 200 milhões (R$ 1,06 bilhão). A empresa segue operando sob recuperação judicial, com várias lojas ainda abertas, incluindo unidades em Chicago, Houston e o salão principal no Fashion Island, em Newport Beach.

Um momento decisivo ocorrerá em julho de 2027, quando vence sua linha de crédito sênior garantida, classificada como B+ pela S&P. Para reduzir a alavancagem, a Compass pode começar a vender outros negócios em breve. Como disse Sabo em uma recente teleconferência com investidores: “Nosso modelo sempre foi: tudo está à venda o tempo todo”. 

O gestor Jim Tringas, da Allspring Funds, acredita que a empresa pode encontrar compradores rapidamente para a Boa, que teve receita de US$ 190 milhões (R$ 1,01 bilhão) em 2025 e fabrica sistemas patenteados de fechamento para capacetes, calçados e botas. A Compass investiu cerca de US$ 460 milhões (R$ 2,44 bilhões) na Boa, adquirindo 83% da empresa e concedendo empréstimos. Também pode ser um bom momento para vender a Arnold Magnetics, com receita de US$ 160 milhões (R$ 848 milhões), fabricante de ímãs de terras raras e outros componentes metálicos de alta tecnologia, na qual investiu US$ 130 milhões (R$ 689 milhões) em 2012. A maior subsidiária em termos de receita é a fabricante 5.11, que vendeu US$ 540 milhões (R$ 2,86 bilhões) em equipamentos táticos para forças de segurança no ano passado.

Veterano da Compass, Tringas manteve suas ações. “Meu modelo não previa uma fraude massiva na maior subsidiária da Compass”, suspira. Mas, com o pior aparentemente já superado, ele acredita que a empresa não terá dificuldade para reduzir sua dívida para menos de quatro vezes o Ebitda por meio da venda de companhias. Olhando pelo lado positivo, Tringas afirma que a Compass agora terá créditos fiscais significativos de prejuízos acumulados, que poderão ser usados para compensar ganhos de capital.

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